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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Coreógrafo com paralisia cerebral é destaque em mostra

"Nossa sociedade, por falta de conhecimento, trata o deficiente como um coitado. Se eu fosse me basear nesse tipo de pensamento, não colocaria meus pés para fora de casa. No meu espaço, não há sofrimento." 

A afirmação é do bailarino e coreógrafo paulistano Marcos Abranches, 36, que tem paralisia cerebral em decorrência do parto. Ele nasceu prematuro, aos 6 meses e 20 dias de gestação. 

Aos oito anos, começou a andar, depois de várias sessões de fisioterapia. Até hoje ele convive com incessantes espasmos, fala e caminha com dificuldade, mas tem o raciocínio perfeito -apesar do nome, a paralisia cerebral não afeta a parte cognitiva. 

Ele conta, antes de iniciar o ensaio aberto de seu mais novo espetáculo, só ter se sentido seguro para andar sozinho na rua aos 16 anos. 

"Corpo sobre Tela", trabalho criado em parceria com Rogério Ortiz e baseado na obra do pintor irlandês Francis Bacon (1909-1992), é um dos destaques da Mostra Internacional de Arte + Sentidos, que vai até 27 de outubro no teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo. 

Ao todo, serão 12 montagens de grupos do Brasil, de Portugal e da Escócia, encenadas por artistas com e sem deficiência. "O principal critério de escolha dos grupos foi a qualidade dos trabalhos", afirma Graziela Vieira, coordenadora da mostra.


Eduardo Knapp/Folhapress
O bailarino e coreógrafo Marcos Abranches durante apresentação 'Corpo Sobre Tela'
 
SINGULARIDADE
Em seu espetáculo, Abranches combina movimentos voluntários e involuntários a um potente trabalho de intérprete. Ele faz de seu corpo uma espécie de pincel e acaba por pintar com ele um quadro em cena. 

O artista não economiza energia ao tratar de temas como autonomia e singularidade. Hoje, considera-se 90% curado. "São mínimas as coisas para as quais preciso de ajuda: fazer a barba, amarrar o sapato e cortar a comida." 

Coisas que não limitam suas criações. 

"Tenho orgulho da minha deficiência, mas não uso isso em primeiro lugar na minha dança. Eu me entrego totalmente, mas antes de qualquer coisa vem meu coração e meu aprendizado", diz. 

Casado e pai de um filho de um ano, o artista afirma que dança pela família e para lutar pelo futuro de um país melhor, principalmente para as pessoas com deficiência. 

"Quero ser um exemplo de coragem para quem usa a própria deficiência em busca de piedade." 


TRAJETÓRIA
Abranches conta que não gostava de ficar em casa e arrumou emprego em um lava-rápido, aos 18 anos. 

Mas o que ele gostava mesmo de fazer era sair para assistir a espetáculos de dança, principalmente os do Balé da Cidade de São Paulo. 

Em uma noite de estreia, conheceu o coreógrafo Sandro Borelli e trocaram contatos. Em poucos dias, Borelli o convidou para acompanhar os ensaios de "Senhor dos Anjos" (2001).

Logo depois, Abranches fez um teste para participar do espetáculo. Passou e entrou para o elenco.

Iniciada a vida nos palcos, ele teve aulas e trabalhou com os coreógrafos Marta Soares, Marcelo Bucoff, Jorge Garcia e com o americano Alito Alessi, um dos fundadores do Dance Ability, escola de movimento que integra, em cena, pessoas com e sem deficiência. 

Abranches fundou o Grupo Vidança SP em 2005 e esteve em cartaz com "D...Equilíbrio", "Formas de Ver" e "Via sem Regra" (apresentado também na Alemanha, na Deutsche Oper Berlin). 

Além das experiências com diretores e coreógrafos brasileiros, ele trabalhou com criadores europeus, entre eles Gerda König e Christoph Schlingensief. 


Eduardo Knapp/Folhapress
Marcos Abranches ensaia 'Corpo Sobre Tela', coreografia baseada em obra do pintor Francis Bacon
Marcos Abranches ensaia 'Corpo Sobre Tela', coreografia baseada em obra do pintor Francis Bacon
 
MOSTRA INCLUSIVA
Outro destaque desta semana na + Sentidos é o espetáculo "Intento 3257,5", da companhia inCena, sobre novos padrões estéticos para o corpo com deficiência. 

A intérprete, Estela Lapponi, 40, foi vítima de um derrame aos 24 e tem a parte esquerda do corpo paralisada. 

"Minha vontade de trabalhar era maior do que qualquer status quo da profissão", conta ela, que já era bailarina antes do acidente. 

"Hoje aceito 100% esse corpo que tenho. Nem penso mais nisso, as pessoas é que me lembram o tempo todo", afirma a bailarina. 

Na última semana do evento estão concentrados três trabalhos de artistas da Escócia, na mostra paralela Unlimited, realizada em parceria com o British Council: "Se Estes Espasmos Pudessem Falar", "Caracóis & Ketchup" & "Mobile/Evolution". 

"Ainda existe preconceito, mas a ideia não é fazer assistencialismo, muito menos chocar as pessoas. A ideia é revelar a arte desses criadores, que evolui cada dia mais", diz Graziela Vieira. 

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Especialistas usam roupa de astronauta para tratar crianças com paralisia cerebral



 
 
Uma equipa de especialistas está até sexta-feira em Faro a ensinar técnicos de uma instituição algarvia a tratar crianças com paralisia cerebral através de um fato inspirado em tecnologia usada por astronautas da agência espacial americana NASA, avança a agência Lusa.

A equipa, composta por especialistas do Brasil e Estados Unidos, está a treinar onze técnicos da Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral (APPC) de Faro ao abrigo do projecto "Vamos ser astronautas", disse à agência Lusa Cristina Sobral, uma das terapeutas que está a receber formação.

Destinado a pessoas com paralisia cerebral e outros distúrbios neurológicos, o tratamento consiste na utilização de um fato originalmente usado por astronautas em voos espaciais e posteriormente adaptado à reabilitação de pessoas com paralisia cerebral.

Marta, de oito anos – que ficou com sequelas neurológicas depois de ter sido atropelada, aos seis –, é uma das crianças que frequentam a APPC/Faro e que está a ajudar os técnicos a testar o método de tratamento.

Depois de ter o fato [Pediasuit] vestido e interligado por elásticos, a criança é colocada numa estrutura metálica de suporte específica, onde são feitas as actividades terapêuticas, assistiu a Lusa no local.

"É como se o fisioterapeuta ganhasse várias mãos e com isso a criança tem um ganho muito mais rápido, fazendo exercícios que jamais poderia fazer", explicou à Lusa a instrutora internacional de "Pediasuit" e Terapia Intensiva, Lúcia Queiróz.

De acordo com a especialista, o tratamento – feito durante quatro semanas, quatro horas por dia, período após o qual se faz um intervalo de um mês – representa um ganho de um ano relativamente à terapia convencional.

"O ideal seria que a criança retomasse o tratamento no espaço de dois a três meses, mas não perde o que ganhou, desde que faça fisioterapia convencional regularmente", acrescentou.

O método pode ser usado em crianças ou adultos que tenham todo o tipo de dificuldades motoras ou sensoriais, desde sequelas por traumatismos cranianos ou Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC), a síndrome de Down ou Autismo.

O "Pediasuit" começou a ser usado na Florida, EUA, há nove anos, depois de o filho de Eileen de Oliveira, Lucas, ter nascido prematuro e com Paralisia Cerebral, o que a levou a procurar métodos de tratamento.

A presidente e fundadora da clínica "Therapies4kids", que desenvolveu o método, explicou que, antes do tratamento, o filho não conseguia sentar-se, gatinhar ou andar.

A utilização do fato em exercícios ajuda a normalizar o tónus muscular, diminuindo os movimentos descontrolados e melhorando a postura e simetria corporais, entre outros benefícios.

"Os pais ficam emocionados, falam até em milagre. Mas não é um milagre, é um efeito fisiológico", explicou Lúcia Queiróz, admitindo que o tratamento é "relativamente caro", mas porque ainda não está suficientemente difundido.

A concretização do projecto "Vamos ser Astronautas" só é possível graças a um prémio que a APPC/Faro recebeu de uma instituição bancária, no valor de 50 mil euros, que contempla a formação de técnicos e a aquisição do material necessário.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Centro de tratamento gratuito de equoterapia está fechado há um mês

Centro de tratamento gratuito com cavalos está fechado há um mês

O descaso de Anastasia com a saúde pública em Minas Gerais está chegando aos seus limites. Único no estado a oferecer este tipo de tratamento de forma gratuita, o Centro de Equoterapia do Regimento de Cavalaria Alferes Tiradentes (Cercat) encontra-se fechado há um mês. O motivo? A falta de profissionais de saúde para atendimento.
Segundo reportagem do jornal O Tempo, a situação chegou a este ponto após uma lei estadual de 2009, que proíbe a contratação de funcionários da área da saúde que não seja por concurso público. Ao mesmo tempo, a greve dos trabalhadores da saúde no estado continua de vento em popa, sem qualquer proposta de negociação satisfatória por parte do governo tucano!

Confira na matéria d’O Tempo a agrura de famílias de portadores de deficiências neuromotoras, autismo, síndrome de down e paralisia cerebral, que cobram uma posição do Governo Anastasia:

Abaixo-assinado pede volta de tratamento com cavalos
Documento tem 500 assinaturas e intenção é chegar ao governador
Publicado no Jornal OTEMPO em 10/07/2012

IANE CHAVES
Único no Estado a oferecer tratamento gratuito para pacientes com deficiências mentais e motoras, o Centro de Equoterapia do Regimento de Cavalaria Alferes Tiradentes (Cercat) completa um mês de portas fechadas. O serviço foi interrompido em junho, depois de 15 anos, por causa da falta de profissionais de saúde. Familiares dos cerca de 270 pacientes que perderam o atendimento fazem um apelo pela volta do serviço e esperam sensibilizar o governador Antonio Anastasia.
O centro presta atendimento a pessoas com deficiências neuromotoras, síndrome de down, autismo e paralisia cerebral. Os pais dos pacientes organizaram um abaixo-assinado para expor a situação e tentar uma audiência com o governador Antonio Anastasia. Segundo as famílias, já são mais de 500 assinaturas apoiando a volta das atividades no Cercat. "Nós queremos que nossa reivindicação chegue até o governador. E esperamos que ele se sensibilize", afirmou Fátima Coelho, 54, mãe de uma das pacientes.

Fátima contou que as famílias temem que o progresso dos filhos seja interrompido e que haja ainda uma regressão. "Há uma nítida melhora no desenvolvimento motor. A minha filha evoluiu sensivelmente no equilíbrio. Hoje, ela consegue firmar o tronco e ter uma postura ereta", disse Fátima, sobre a filha Melissa, 12, que tem paralisia cerebral.

Para Denizi Dinardi, mãe de Rodrigo, 33, que também tem paralisia cerebral, além de ter um desenvolvimento motor, há um fator importante de socialização no tratamento. "Meu filho passa a falar muito mais e com clareza quando faz a terapia. Não podemos deixar que um centro de reabilitação tão importante deixe de funcionar", disse.

O problema. A falta de profissionais da saúde começou em 2009, quando uma lei estadual proibiu a contratação desses funcionários, determinando que apenas concursados poderiam assumir as vagas. "Não podíamos mais renovar os contratos e ficamos dependentes do envio de profissionais da Fhemig", disse o sargento José Geraldo Nunes, subcoordenador do Cercat.

Segundo o sargento, a suspensão aconteceu depois de quatro funcionários pedirem desligamento por motivos pessoais. "Tivemos que suspender as atividades. É impossível dois técnicos atenderem à nossa enorme demanda", completou.

Investimento
Recurso. Em maio deste ano, a Secretaria de Estado de Saúde liberou uma verba de R$ 300 mil para investimentos no Cercat. O dinheiro servirá para o custeio do local, compra de equipamento e pagamento de pessoal.

Fhemig
Agosto é previsão para retorno das atividades

Mesmo ainda sem data definida, a Fundação Hospitalar de Minas Gerais (Fhemig), responsável pelo envio de funcionários ao Centro de Equoterapia do Regimento de Cavalaria Alferes Tiradentes (Cercat), promete o retorno das atividades para a mês que vem. Segundo a assessoria de imprensa da fundação, os servidores foram aprovados no último concurso da Fhemig, de 2009, e já estão em fase de treinamento.
O Cercat funciona em um esquema de convênio com a Secretaria de Estado de Saúde, e o corpo técnico é de responsabilidade da Fhemig. O comandante da cavalaria, tenente coronel Mac Dowel Campos, afirma que também trabalha com a previsão para a retomada em agosto, quando os novos funcionários devem ser enviados pela fundação.
"Dependemos apenas da convocação dos funcionários pela Fhemig. A estrutura mantida pela Polícia Militar, com os equitadores e os animais, está apta a funcionar". O convênio, firmado em 2004, prevê o envio de sete profissionais, entre eles, médicos ortopedistas, fisioterapeutas, psicólogos, terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos. (IC)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Advogada com paralisia cerebral. Portadora de paralisia cerebral se torna advogada em São Paulo

http://www.youtube.com/watch?v=gft57jXi9Vo

NESTE ANO UM CASO RARO E DE SUPERAÇÃO FOI APROVADO NA TEMIDA PROVA DA OAB. A BACHAREL EM DIREITO, FLÁVIA CRISTIANE, UMA JOVEM DE 26 ANOS, COM PARALISIA CEREBRAL, CONSEGUIU CONQUISTAR O SONHADO PASSAPORTE PARA O EXERCÍCIO DA PROFISSÃO.



Luísa Brito Do G1, em São Paulo

Flávia Silva em sua colação de grau 
(Foto: Arquivo pessoal)
Em uma cadeira de rodas, com limitações de coordenação motora e dificuldades para falar, a bacharel em direito Flávia Cristiane Fuga e Silva, de 26 anos, vai receber sua carteira de advogada nesta quinta-feira (29) e será a primeira defensora com paralisia cerebral do estado de São Paulo.

Ela foi aprovada no exame 133 da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB – SP) e com o registro na ordem pode atuar como defensora em qualquer lugar do país. Flávia mora em São José dos Campos, a 91 km de São Paulo. Como o resultado do exame já foi divulgado, ela já possui o registro na OAB-SP, de número 269.203.

Mesmo com as dificuldades que enfrenta, ela foi aprovada num exame no qual 84,1% dos 17.871 inscritos não atingiram a pontuação necessária para passar. Como digita num teclado virtual e só usa a mão esquerda, a bacharel teve oito horas para fazer a segunda fase do exame, segundo a OAB, ao contrário dos colegas que possuem apenas cinco. Muitas amigas da mesma classe dela ainda não conseguiram passar na prova.

Flávia escolheu fazer o curso de direito por influência do pai, Eliezer Gomes da Silva, que é advogado e também porque queria defender seus direitos como portadora de deficiência. “Queria brigar pelo direito das pessoas portadoras de necessidades especiais que são tolhidas pela sociedade”, disse ela, por intermédio de seu pai, que ajudou na entrevista ao G1, por telefone.

A advogada afirmou também que ficou feliz ao saber que havia passado no exame, mas já esperava o resultado por ter estudado bastante. Ela cursou faculdade na Universidade do Vale do Paraíba (Univap) entre 2001 e 2005 e conseguiu concluir o curso no tempo normal.

Como não tinha condições de anotar o que o professor dizia nas aulas, Flávia prestava atenção. Depois tirava cópia do que as colegas anotavam e estudava em casa. “Ela sempre tirou nota boa, sempre acima de sete, sabíamos que ela conseguiria passar na OAB”, disse Silva.

Flávia na formatura com sua mãe, sua irmã, seu pai e um professor da faculdade 
(Arquivo pessoal)
Na hora da prova, segundo seu pai, os professores faziam um exame de múltipla escolha para ela poder responder mais facilmente, já que só era necessário apontar a resposta correta. Como não tem coordenação motora para usar a caneta, Flávia contava com a ajuda de alguém da família que ia até a faculdade nos dias de prova.

Flávia já trabalha junto com o pai, no escritório dele, fazendo peças jurídicas em casos de direito de família. Ela gosta mais da área de direito penal, mas desistiu segundo conta Silva, pois seria inviável trabalhar na área devido a necessidade de locomoção constante, para ir a delegacias e presídios e também porque exige que o advogado fale mais, inclusive diante de um júri.

A advogada é totalmente dependente para se locomover, comer, tomar banho, entre outras coisas. A família conta que sempre lutou pelos direitos da filha e, junto com outros pais de São José dos Campos, conseguiu que a rede pública criasse uma escola para os portadores de deficiência. Uma vez a cada seis meses, a advogada vai ao Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília, para fazer tratamento.

A moça começou a estudar com sete anos de idade e nas primeiras quatro séries sentiu dificuldades e teve de fazer o período de quatro anos em sete. Depois, pegou o ritmo e conseguiu concluir o ensino médio com 21 anos.

Apesar das dificuldades, ela procura manter uma vida social ativa saindo com as colegas para o cinema, teatro e shopping. Quando o programa envolve restaurante, a mãe vai junto para ajudar a filha.

“No início ela tinha dificuldade de se aceitar, mas quando foi conhecendo pessoas como ela, teve força de vontade e conseguiu suplantar os problemas”, conta o pai. “Hoje em dia ela é uma moça muito contente, alegre e está sempre rindo. Tem várias amigas e até as ajuda com trabalhos jurídicos”, acrescenta.

Além do direito, Flávia também dedica seu tempo a um curso de pintura e até já expôs seus quadros no Fórum Trabalhista de São José dos Campos, em fevereiro deste ano.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Nutrição como aliada no tratamento de portadores de autismo e paralisia cerebral

Grupo do Centro Universitário UNA, de Minas Gerais, faz estudo alimentar em crianças e adolescentes com autismo ou paralisia cerebral praticantes de equoterapia e comprova que uma dieta balanceada potencializa sua capacidade de resposta

Belo Horizonte — O tratamento de pacientes com base na equoterapia feito com portadores de autismo e paralisia cerebral ganha um aliado especial: a boa alimentação. Comidas balanceadas e fontes de vitaminas e proteínas bem definidas ajudam a melhorar a qualidade de vida, além de estimular a capacidade de resposta desses pacientes. Estudos feitos por uma equipe do curso de nutrição do Centro Universitário UNA, de Belo Horizonte, comprovam os bons resultados. A pesquisa Transdisciplinariedade em ação, iniciada no segundo semestre do ano passado, analisou, a partir de novos hábitos alimentares, o comportamento e as reações de crianças e adolescentes carentes que praticam a terapia com cavalos no município de Itatiaiuçu, localizado na região metropolitana da capital mineira.

A professora Maria Cristina Santiago, uma das responsáveis pelo projeto, diz que o nutricionista não é referenciado como profissional de suporte à recuperação dos deficientes, ao contrário de outras áreas, como a psicologia e a fisioterapia. Mas os resultados apontam a necessidade de mudanças na composição desse quadro. “Mostramos que a criança com uma condição nutricional ruim, principalmente aquelas com paralisia cerebral, tem resposta melhor até mesmo ao próprio tratamento de equoterapia quando consegue absorver os nutrientes dos quais precisa. O corpo deve estar preparado para reagir ao exercício”, destaca.

No caso do autismo, uma das primeiras providências é a retirada da caseína (proteína do leite) e do glúten (proteína do trigo), dois elementos que estimulam a agressividade nos portadores da doença. A exclusão delas, conforme testado, melhora a sociabilidade e diminui a irritabilidade. Assim, sairão de cena pães e biscoitos, presentes no cotidiano do grupo, para a entrada de alimentos à base de farinha de mandioca, milho e arroz, que não contêm a proteína. O pão de queijo, por exemplo, poderia ser feito sem leite e com a mandioca; e o queijo poderia ser substituído por essências e aromatizantes. Bolos e pães também substituem ingredientes básicos, como leite e farinha de trigo, pelo polvilho.

No grupo das proteínas, os grandes aliados são o ovo e a soja. “O desafio é tentar receitas mais baratas, principalmente com a soja, sempre pensando na aceitabilidade da criança, que precisa reconhecer o que come. Para esse tipo de paciente, o sabor, muitas vezes, é secundário. O importante é a imagem. Mas, se o paladar também for essencial, devemos conseguir um sabor o mais próximo possível, incluindo sempre as vitaminas, sais minerais, entre outros. Deve-se ressaltar que a retirada ou a inclusão de qualquer elemento deve ocorrer devagar”, afirma Maria Cristina.

Quanto a quem tem paralisia cerebral, não é preciso tirar nada da dieta, mas sim estimular o ato de comer. Nesses casos, a grande dificuldade é engolir, por isso, a tendência é ingerir muito líquido, levando a uma desnutrição natural, não provocada pela doença, mas pelo fato puro e simples da falta de comida. Dessa maneira, é preciso coordenar os movimentos de deglutir e mastigar da criança, com uma alimentação muito cozida ou pastosa. “A desnutrição traz problemas que vão comprometer ainda mais o desenvolvimento cerebral. Quantidades insuficiente de proteína e calorias são as que mais lesionam o organismo, deixando a pessoa mais apática e cansada”, alerta a professora. A estratégia é introduzir mais proteínas de acordo com o tipo de paralisia.
Segundo Maria Cristina, a principal questão é como introduzir a comida e fazer com que a criança ingira os elementos dos quais precisa diariamente. “É impossível concentrar 1,5 mil calorias por dia, o mínimo necessário ao organismo, em líquidos. Dessa forma, normalmente, ingerem 800. Um litro da dieta pronta custa R$ 300, valor inviável para a maioria dos pais dessas crianças. E sopa no liquidificador não supre essas calorias. Há solução e provamos isso, mas é preciso paciência”, ressalta. A paralisia abrange um conjunto de deficiências, problema que pode ser resolvido com uma nutrição equilibrada e consequente recuperação da massa muscular.

Continuidade
O projeto-piloto fez intervenção nutricional em 16 pessoas, das quais quatro crianças e adolescentes foram acompanhados e apresentaram resultados positivos. Muitos pais se esquivaram, com medo de as avaliações significarem mais um transtorno financeiro. Em 2011, a expectativa é trabalhar com 30 pacientes, com a meta de sucesso em 15 deles. No ano passado, um dos casos mais notáveis foi o de uma menina de 7 anos, portadora de paralisia cerebral, que depois do acompanhamento da equipe da UNA ganhou 1,6kg em um mês.

Além disso, ela tem constipação intestinal grave, com frequência de uma vez por semana e fezes endurecidas. A regularidade aumentou para três vezes, com fezes pastosas, por causa do tratamento à base de probióticos (leite fermentado), pasta de ameixa preta pela manhã e o aumento da quantidade de fibras na alimentação, com a introdução de farinha de linhaça nas refeições. A garota também tinha dificuldade de comer novos alimentos e só aceitava beber um determinado suco de caixinha, por causa da embalagem — não importava o conteúdo. Foi ensinado à mãe a esterilizar a caixa e pôr dentro dela os alimentos, para a menina identificar o que era familiar, mas mostrando o conteúdo. Com o tempo, ela se acostumou e, hoje, praticamente aboliu o recipiente.

Outro exemplo é de um adolescente de 13 anos, com paralisia cerebral leve, desnutrição moderada e dificuldade de aceitar novos alimentos, além de cansaço constante. Depois de 60 dias, ele ganhou 6kg, cresceu 2cm e apresentou melhora visível na massa muscular. O garoto deve ser inscrito nas próximas paraolimpíadas. “A primeira parte do estudo foi exploratória, mas houve resultados suficientes para continuarmos, sempre respeitando a individualidade e a realidade econômica das famílias. A nutrição é uma solução, não pode ser um problema a mais”, diz Maria Cristina.