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quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

A importância de brincar sem brinquedo



Um foguete, uma varinha mágica, um trem ou qualquer tipo de animal estão entre as muitas formas que um simples graveto pode tomar pela criatividade e imaginação (principalmente) das crianças. O exercício é importante para o desenvolvimento e para a construção autoral dos pequenos e, ter esta consciência, ajuda os adultos a garantir que haja momentos livres de brinquedos prontos.
“É preciso não planejar tantas atividades e não deixar tantas opções de brinquedos com uma função específica disponível”, afirma Tatiana Weberman, responsável pelo SlowKids, movimento que propõe a desaceleração para a infância. “Deixar menos opções, muitas vezes, é abrir uma porta para a criatividade e uma vastidão de possibilidades.”


Criadora da plataforma de brincadeiras Massacuca, Graziela Iacooca, conta que, ao contrário de muitos adultos, as crianças não precisam de instruções para brincar com objetos do cotidiano. “A nossa proposta é tirar o lúdico de objetos normais, o que a criança sabe fazer. Estamos ensinando os adultos a disponibilizar isso para os pequenos”, comenta.
O caso mais famoso é o tradicional baú de tesouros. Basta uma caixa, balde ou sacola e diferentes objetos da casa, como utensílios de cozinha em tamanhos e materiais variados. “Daí podem sair narrativas de histórias incríveis ou um bolo ou qualquer coisa que a criança queira e ela vai se divertir não apenas com os objetos, mas com a criação”, comenta Graziela.


Os mesmos objetos podem ser também contornados, congelados, ornamentados, mergulhados na água, enterrados e assim por diante. “Não somos exatamente contra brinquedos, mas contra o excesso de brinquedos e contra os que têm uma função específica”, explica.
Um animal bem pequeno, por exemplo, pode ser colocado dentro de uma bexiga com água, congelado e depois se transformar em um ovo a ser quebrado para retirar o bicho de lá de dentro.
O brincar espontâneo é objeto de pesquisa da cineasta Renata Meirelles. Por conta disso, viajou por 9 estados e estabeleceu-se em 14 comunidades diferentes durante 1 a 3 meses para estudar o assunto e produzir o documentário Território do Brincar, lançado este ano. “O foco foi sempre entender o que a criança faz, elas que dizem o que querem nos mostrar”, conta.
Ela e o marido viajaram com os dois filhos, agora com 6 e 8 anos, que também participavam das brincadeiras. Os destinos escolhidos foram locais com pouca estrutura como o Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, ou o Recôncavo Baiano.
“A gente viu muitas que não se utilizam de brinquedos comprados, industrializados, elas reúnem o nada e organizam para compor o que elas brincam”, explica, ainda com o encanto da riqueza percebida. “Nesta busca, ela consegue se ver representada por aquelas coisas que ela fez, compôs, arrumou. Cria um diálogo grande com quem ela é.”


Para ela, há um “sufocamento da própria infância” com a quantidade de brinquedos de que algumas são cercadas. “Mesmo os brinquedos mais comuns, como carrinhos e barquinhos, para os meninos, quando são feitos por eles, com latas, tábuas, chinelos, pneus e uma gama de objetos contam uma história e geram um vínculo diferente.”
Ela conta que impressionam os detalhes, por exemplo, em casinhas com panos colocados como toalhas de mesa e flores para decorar. “Foi incrível a diversidade de composições de brinquedos e brincadeiras”, comenta.
Os filhos levaram uma mala de brinquedos que também eram compartilhados e costumavam interessar às demais crianças. “Certamente se você falar que vai dar, eles querem, mas sabem distinguir. Eles dizem, por exemplo, que brinquedo comprado ‘quebra’, ou seja, os deles, em sua percepção, são apenas modificados.”
Para ela, entre tantas lições do projeto Território do Brincar, uma bastante clara é que a infância precisa do ócio e da ausência de brinquedos prontos para que possam acessar os próprios desejos, vontades e interesses. “Elas conseguem concretizar na prática seus sonhos com sua imaginação.”

Fonte: Carta Capital

Brincar de fazer comidinha é criar banquetes cheios de natureza e imaginação





por Ana Carolina Thomé e Rita Mendonça


Reunir pessoas para um banquete é sempre especial. Já pensou reunir pessoas para brincar de comidinha feita de terra e outros elementos da natureza?!
Assim é a oficina Cozinha da Floresta, que realizamos periodicamente. E apreciamos ainda mais quando essa brincadeira acontece em local de natureza abundante. É nesse cenário que nós e as famílias – muitas crianças! – podemos coletar ingredientes frescos e variados para “nossos pratos”. E, enquanto a coleta acontece, as crianças observam o entorno, descobrem detalhes, pesquisam texturas para propor consistências, cores e formas que vão adornar seus menus.
Mas, na verdade, a brincadeira pode acontecer em qualquer lugar. Mesmo que não seja rico em ingredientes – sementes, frutos, flores e folhas – podemos fazer uma coleta antecipada. De qualquer forma, o que não podemos esquecer é que cada época do ano oferece tipos diferentes de ingredientes. E esse olhar para a diversidade também é faz parte do aprendizado e da brincadeira.
Com o espaço preparado, as crianças e suas famílias são convidadas a participar da Cozinha. Sao convidadas a brincar. E, por mais que já tenhamos feito esses encontros muitas vezes, sempre nos surpreendemos com as relações que surgem durante a atividade. 
Os pequenos sempre chegam muito curiosos. Já pegam um potinho e uma colher de pau, enchem de terra, e começam a fazer misturas. Encanta-nos observar os gestos e a qualidade dos movimentos enquanto a criança está inteira e presente em sua ação. 
Os maiores chegam, geralmente, recusando entrar na brincadeira. “Já sou grande para isso!”, dizem e se distanciam, mas observando a brincadeira. Aos poucos – e, às vezes, sem perceber -, se aproximam. Ajudam numa mexidinha aqui, colocam um ingrediente ali. Quando menos esperamos elas estão em meio a brincadeira, inteiras e experimentando tudo. “Passe aquela semente, por favor?!”. “Gostaria de um pouco mais dessa flor”. 
E os adultos? Quando damos início à brincadeira e os convidamos todos para participar – “Vamos brincar?!” -, são eles que imediatamente levantam as mãos e dizem “SIM!”. Mas claro que existem aqueles que não se entregam logo no começo: observam, ficam por perto, vez ou outra pegam um ingrediente, o oferecem, ajudam a mistura-lo…
Por outro lado, há adultos que são coletores profissionais. Saem para explorar o entorno e voltam cheios de ingredientes. Começam fazendo isso para ajudar os filhos, mas logo estão contribuindo com os demais grupos. 
Brincar de comidinha é um ato que, quase de forma uníssona, perpassa a cultura da Infância. Difícil encontrar quem, nesse período da vida, não brincou assim, não tenha se reunido com outras crianças para fazer banquetes de natureza e imaginação.
É incrível como essa também é uma atividade que desenvolve o senso estético pois, em geral, os pratos preparados são sempre bem decorados, explorando padrões e características de diferentes elementos, buscando uma beleza orgânica.
Preparar o alimento talvez tenha sido a principal atividade coletiva que deu origem à formação dos grupos humanos, quando estávamos aprendendo a ser Homo sapiens, há mais de 200 mil anos. Por isso que, brincar de fazer comida, juntos, em família, com amigos, permite às crianças vivenciar algo essencial de nossa experiência ancestral. 
Fotos: Ana Carol Thomé

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Uma criança saudável é espontânea, barulhenta, inquieta, emotiva e colorida



Uma criança não nasce para estar sentada, vendo televisão ou brincando com o tablet. 

Uma criança não quer estar calada o tempo todo.

Elas precisam se mexer, explorar, encontrar novidades, criar aventuras e descobrir o mundo que as rodeia. Elas estão aprendendo, são esponjas, brincalhonas natas, caçadoras de tesouros, terremotos em potencial.

Elas são livres, almas puras que tentam voar, não ficar de canto, amarradas ou com algemas. Não as façamos escravas da vida adulta, da pressa e da escassez de imaginação dos mais velhos.

Não as apressemos ao nosso mundo de desencanto, potencializemos a sua capacidade de se surpreender. Precisamos garantir que tenham uma vida emocional, social e cognitiva rica de conteúdos, de perfumes de flores, de expressão sensorial, de alegrias e de conhecimentos.

O que se passa no cérebro de uma criança quando brinca?

A brincadeira tem benefícios para as crianças em todos os níveis (fisiológico-emocional, comportamental e cognitivo) que não são novidade. De fato, podemos falar de diversas repercussões inter-relacionadas que ela oferece:

Regula o seu estado de ânimo e a sua ansiedade.

Favorece a atenção, a aprendizagem e a memória.

Reduz a tensão dos neurônios, favorecendo a tranquilidade, o bem-estar e a felicidade.

Magnifica a sua motivação física, e graças a isto seus músculos reagem motivando-as a brincar.

Tudo isto favorece um estado ótimo para a imaginação e a criatividade, ajudando-as a aproveitar a fantasia que as rodeia.

A sociedade vem alimentando a hiperpaternalidade, ou seja, a obsessão dos pais para que seus filhos alcancem habilidades especificas que garantam uma boa profissão no futuro. E como sociedade e educadores, nos esquecemos de que as crianças não têm valor segundo a sua nota escolar, e que não abrandando o nosso empenho de priorizar os resultados,estamos descuidando das habilidades para a vida.

O valor das nossas crianças é o de pequenas pessoas que precisam ser amadas independentemente de tudo, não se definem por suas conquistas ou por seus fracassos, mas sim por elas mesmas, únicas por natureza. Como crianças não somos responsáveis pelo que recebemos na infância mas, como adultos, somos totalmente responsáveis por corrigi-lo.

Simplificar a infância da criança, educar bem

A expressão “cada pessoa é única” é algo que costumamos dizer com frequência mas que ainda temos pouco internalizado. Isto se vê em um simples fato: estabelecemos uma série de regras para educar a todas as nossas crianças.

Realmente este é um erro muito generalizado e que não é nem um pouco coerente com o que acreditamos (que cada pessoa é única). Portanto, não se estranha que a confluência dos nossos valores e das nossas atitudes sejam conflitantes na criação.

Por outro lado, como afirma Kim Payne, professor e orientador norte-americano, estamos criando nossas crianças no excesso de, exatamente, quatro pilares:

Informação demais.

Coisas demais.

Opções demais.

Velocidade demais.

Estamos impedindo-as de explorar, refletir ou se libertar das tensões que existem na vida cotidiana. Estamos empanturrando-as de tecnologia, de brinquedos e de atividades escolares e extracurriculares, estamos distorcendo a infância e, o que é mais grave, estamos impedindo-as de brincar e se desenvolver.

Atualmente, as crianças passam menos tempo ao ar livre do que as pessoas que estão em prisões. Por quê? Porque as mantemos “entretidas e ocupadas” em outras atividades que achamos mais necessárias, procurando que fiquem limpos e não se sujem de barro. Isto é inaceitável e, acima de tudo, extremamente preocupante. Analisemos algumas razões pelas quais precisamos mudar isto…

O excesso de higiene aumenta a possibilidade de que as crianças desenvolvam alergias, bem como demonstrou uma pesquisa do hospital Gotemburgo, na Suécia.

Não permitir que brinquem ao ar livre é uma tortura que enclausura o seu potencial criativo e de desenvolvimento.
Mantê-los colados à tela do celular, do tablet, do computador ou da televisão é tremendamente prejudicial a nível fisiológico, emocional, cognitivo e comportamental.

Poderíamos continuar, mas realmente, neste ponto, acredito que a maioria de nós já encontrou inúmeras razões que mostram que estamos destruindo a magia da infância.Como afirma o educador Francesco Tonucci: “A experiência das crianças deveria ser o alimento da escola: sua vida, suas surpresas e suas descobertas. Meu professor sempre pedia que esvaziássemos os bolsos na sala de aula, porque estavam cheios de testemunhas do mundo exterior: bichos, cordas, figurinhas, bolinhas… Pois atualmente deveríamos fazer o contrário, pedir as crianças que mostrem o que levam nos bolsos. Desta forma a escola se abriria para a vida, recebendo as crianças com seus conhecimentos e trabalhando ao redor delas”.

Esta, sem dúvida, é uma forma muito mais sadia de trabalhar com elas, de educá-las e de garantir o seu sucesso. Se em algum momento nos esquecermos, deveríamos ter o seguinte muito presente: “Se uma criança não precisa entrar com urgência na banheira, é porque não brincou o suficiente”. Esta é a premissa fundamental de uma boa educação.

Fonte: A mente é maravilhosa

segunda-feira, 2 de março de 2015

Aprender música antes dos 7 anos ajuda no desenvolvimento da criança

por Marcela Bourroul

  shutterstock

O contato da criança com a música desde a primeira infância pode ajudar em seu desenvolvimento cerebral. O que músicos e educadores já percebem em seu dia a dia trabalhando com crianças agora faz parte do resultado de uma pesquisa realizada na Universidade de Concórdia, no Canadá. Segundo os dados, pessoas que começaram a estudar música antes dos 7 anos apresentam conexões neurais na idade adulta diferentes daquelas que começaram seus estudos musicais mais tarde.
Para realizar a pesquisa, foram montados três grupos: um com músicos profissionais que começaram a aprender antes dos 7 anos, músicos profissionais que começaram a estudar música depois dos 7 anos e pessoas que nunca haviam praticado um instrumento. Todos os participantes tiveram que executar alguns movimentos com o corpo. Usando aparelhos específicos, os pesquisadores mediram a resposta cerebral de cada um dos participantes durante o exercício. O objetivo dos pesquisadores era descobrir se existia algum tipo de conexão no cérebro que só poderia ser feita em determinada idade.

Ao analisar as habilidades motoras de cada grupo, eles notaram que os adultos que haviam começado a estudar música mais cedo tinham mais conexões entre as áreas motoras do lado esquerdo e do lado direito do cérebro. Entre aqueles que não eram músicos profissionais e os músicos que haviam começado seus estudos mais tarde, não havia diferença. Para os especialistas, isso confirmou a hipótese inicial. Vale lembrar que o estudo não estava avaliando a qualidade musical dos participantes, mas sim estudando sua estrutura cerebral.

Para o neuropediatra Mauro Muszkat, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), os resultados obtidos pela pesquisa fazem muito sentido, pois o cérebro realmente tem os chamados “períodos sensíveis” e certas conexões só podem ser construídas nesses momentos. Isso acontece em relação não só com habilidades motoras, mas com a linguagem, audição e visão.

De acordo com Muszkat, existem muitos pesquisadores que estudam a relação entre a música e o cérebro, e esse é outro estudo que reforça o benefício desse contato. “Um dos motivos para que a música traga tantos benefícios à criança é que ela trabalha múltiplas habilidades, estimulando a parte motora, a audição, o raciocínio, as noções de proporção e ritmo, as emoções, a sensibilidade e, assim faz com que várias áreas do cérebro funcionem simultaneamente”, diz o especialista.

Respeite o tempo da criança

A educadora musical Teca Alencar de Brito, professora do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes da USP, afirma que é possível introduzir a música no mundo de crianças de todas as idades, mesmo as mais novas. Porém, é preciso respeitar seu modo de perceber o mundo. Por exemplo, uma criança de 4 anos que quer aprender a tocar piano não necessariamente quer aprender a ler uma partitura. Ela pode simplesmente querer apertar as teclas e explorar as possibilidades daquele instrumento. Uma aula ou um professor que tente diminuir esta espontaneidade provavelmente aborrecerá a criança e a afastará do piano.

Teca reconhece os múltiplos benefícios desse contato, mas faz uma ressalva: “Tudo depende do modo como é feito. Tem crianças que começam a fazer aula muito cedo e não têm experiências boas. Ter contato com a música não significa só aprender um instrumento e saber ler uma partitura. Se a aula for chata, a criança vai se desinteressar”, explica. Ela explica que é preciso respeitar e acompanhar o desenvolvimento da criança, e introduzir o treino mais formal quando ela estiver mais madura.

Enquanto isso, há muitas possibilidades de trabalhar a música, como deixar as crianças explorarem possibilidades de sonorização e objetos, fazer música em grupo e conhecer os instrumentos. Para Muszkat, não é preciso treinar um instrumento para desenvolver os conhecimentos musicais, basta que a aula de música possibilite a participação ativa das crianças. E, independente da idade, Teca defende que as aulas de música também sejam um espaço para a criação. “O ensino da música precisa integrar essas possibilidades: trabalhar a partitura, mas ao mesmo tempo incentivar a criança a tirar música de ouvido, improvisar, inventar.”

Teca também não acha que a música deve ser apenas um meio para outros fins. “Os pais não devem pensar que a música está sempre servindo a outras coisas, eles precisam pensar na música em si e, se houver um bom trabalho pedagógico, a criança vai se desenvolver naturalmente. Eu mesma, por exemplo, estudo música desde os 5 anos, hoje tenho 58 e nunca fui boa em matemática!.”

O benefício da música para crianças já foi apontado por vários estudos e nada mais justo do que os pais quererem oferecer essa possibilidade aos filhos desde cedo. No entanto, esse aprendizado não precisa acontecer somente dentro dos moldes tradicionais ou de uma maneira que acabe com toda a diversão e emoção que a música pode – e deve – proporcionar. 

Fonte: Revista Crescer