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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

A brincadeira se faz com a vida, e não com produtos comprados



por Renata Penzani


A afirmação é de Gandhy Piorski, pesquisador da cultura de infância. Desde 2003, o maranhense estuda o brinquedo e a brincadeira como valor fundamental da infância. O interesse de Gandhy pelo tema começou no Museu do Brinquedo, em Portugal, se estendeu para o Brasil, e rendeu duas exposições, um projeto de mestrado, diversos seminários e palestras em universidades.

Gandhy é autor do livro “Brinquedos do Chão” (editora Peirópolis, 2016). Nele, o autor investiga as diferentes representações do brincar e defende a liberdade de ser criança, e, principalmente, a imaginação.

Segundo ele, a imaginação é o que constrói a psique da criança, e, se não for estimulada na primeira infância, pode atrofiar e causar danos como adultização precoce.

“A imaginação é a verdade da criança. Para alcançarmos a criança, devemos compreender que a imaginação é um mundo”

Para ele, “os conteúdos da infância estão no porão do olhar cultural”, e seu trabalho vem para chamar a atenção para essa lacuna da sociedade.

Confira a entrevista completa:

Lunetas – No filme “O Começo da Vida”, é marcante a fala de um pai que diz que, “do ponto de vista criativo, a melhor coisa que podemos dar a uma criança é o nada”. Você concorda? Pode falar um pouco sobre?

Gandhy Piorski – O nada é o chão do todo. Assim, é rico de possibilidades, aberto sempre a novos caminhos. Esse espaço é vital para permitir que a criança floresça encontrando, desde si, a larga extensão do mundo. Mas quem permite o nada para a criança deve estar integrado a ele, ser presente e ativo nesse espaço aparentemente vazio. Pois a presença do pai, da mãe, do educador é quem assegura a ambiência, a atmosfera, a confiança, o acolhimento da descoberta, o encontro das novas possibilidades, a investigação que a criança naturalmente quer exercer sobre as coisas, as matérias, os corpos, os gestos, as palavras.

“O excesso de ofertas e atividades, tarefas, deveres escolares, muitos brinquedos, entretenimento, estímulos e mais estímulos, parasita a criança”

O excesso entedia, tira-lhe a autonomia, desvitaliza sua força imaginadora, empreguiça seu auscultar minucioso das coisas mais ínfimas e instrutivas do viver.

O nada é o fazer livre nos lugares de liberdade do corpo, de diversidade tátil, de geografia irregular, de arquitetura mais humana, de convívio comunitário, de experiências na natureza, de cidades mais acolhedoras.

“O brincar se faz com a vida e não com produtos adquiridos em lojas”

Assim também o corpo, sua subjetividade, se constrói integrado à cidade, à natureza, aos ambientes que propiciam a alegria de explorar, aos convívios atentos dos pais e cuidadores.

Lunetas – O excesso de brinquedos prontos limita a imaginação das crianças?
Gandhy – As imagens internas são alimentos vitais para qualquer um de nós. Mas, especialmente na criança, a dinâmica dessas imagens (a imaginação) está mais acessível, mais dada e é a base de suas relações com as coisas e pessoas.

“Imaginação requer espaço, folga, lugares de contemplação, devaneio, solidão, convívio, lugares desafiadores. Todas as coisas que tiram esse direito das crianças são excessos”

Muitas atividades, demasia de informação escolar, deveres e mais deveres a cumprir no dia a dia, com o enfadonho objetivo serem bem-sucedidas num tempo futuro e distante. Do mesmo modo os apelos constantes para o consumo de brinquedos, todas essas coisas estão nos fundamentos primeiros da modernidade, onde o ideário que a sustenta é a produção e a aquisição.

“Inserimos nossas crianças num fluxo vertiginoso de modelamento social, para num futuro serem vitoriosas na geração de produtos e consumo”

Com isso, reprimimos o que elas têm de mais valioso no humano, aquilo do qual elas são as principais depositárias: a poderosa e plástica capacidade de imaginar. Dessa faculdade plástica e anímica é que brota a verdadeira inteligência. Esse é o lugar onde se adubam os valores, onde se constrói a ética pela apreensão estética.

Portanto, excessos de um modo geral obstruem o delicado fluxo imaginador que se espraia da criança para o mundo como uma fragrância, uma brisa, uma suspensão vaporosa que toca-o, enlaça-o buscando contato com ele, enraizamento nele, almejando a integridade dele. Assim, é possível nascer um dizer autêntico advindo de sua própria busca, de seu próprio interesse, de suas próprias afinidades.

“Muitos brinquedos, para a sensível percepção da criança, são como estar ao lado de um tagarela que não dá espaço para os outros falarem”

Lunetas – A criança está sujeita a uma quantidade enorme de estímulos a todo momento. Mas o adulto tem culpa nisso. Como então proporcionar à criança o ambiente propício para que ela apenas possa ser?

Gandhy – Esse é um drama civilizacional. Está em como escolhemos viver. Mas também está para aqueles que estão muito mais limitados em como escolher o modo de vida por barreiras sociais, políticas, educacionais.

“As crianças têm pouca escolha. E isso é trágico, pois estão à mercê dos desejos das épocas, dos pais, das nações. Certamente, o peso da responsabilidade em escolher não é das crianças, é nosso”

Mudar o curso de nossas vidas para criar condições melhores para nossos filhos é nossa tarefa. Modos de trabalho, concepções sobre o tempo, entendimentos sobre o que realmente é aprendizado, senso de vida comunitária, e tantas outras revisões são necessárias para encontrarmos o ambiente propício para que a criança seja ela mesma.



Vamos falar mais sobre o brincar





quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Criatividade será 3ª habilidade mais importante para o mercado de trabalho futuro




Em 2015, a 
criatividade era considerada como a 10ª habilidade mais importante para o mercado de trabalho. Desde então, ela galgou posições e hoje é considerada o terceiro skill principal para quem busca se tornar um profissional bem-sucedido.

Esta mudança foi um dos temas abordados durante o Fórum Econômico de Davos de 2018. Durante o encontro global, ficou claro que as artes se tornaram hoje parte fundamental da chamada quarta revolução industrial. A criatividade foi indicada como uma das três principais habilidades necessárias para o profissional do futuro, ao lado da capacidade de resolver problemas complexos e do pensamento crítico.
Isso é essencialmente importante hoje, quando o Brasil discute sua Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para o ensino médio. Embora o documento tenha sido apresentado pelo Ministério da Educação, o Instituto Arte na Escola lembra que ele não detalha conteúdos de diversas áreas do conhecimento. Estão incluídas nesse leque as manifestações artísticas, como teatro, música, dança e artes visuais.
O Instituto defende que estes processos criativos sejam um componente curricular obrigatório nas escolas. Isso requer professores especialistas nestas áreas que possam conduzir os alunos na descoberta dos campos artísticos.
“Temos como premissa que a arte, enquanto objeto do saber, desenvolve nos alunos habilidades perceptivas, capacidade reflexiva e incentiva a formação de uma consciência crítica, não se limitando à autoexpressão e à criatividade”, diz Claudio Anjos, diretor-executivo da Fundação Iochpe e do Instituto Arte na Escola.
De olho na necessidade de desenvolver habilidades criativas e artísticas, outros países já estão adaptando seus currículos escolares. É o caso da Argentina, em que o cinema passou a ser ensinado nas escolas. No Brasil, projetos realizados na Bahia e em São Paulo já aplicam o ensino de arte ou criatividade ao dia a dia dos estudantes.
Quando estruturados no currículo escolar, o ensino de artes e humanidades auxilia o desenvolvimento de outras habilidades, incluindo aquelas relacionadas à tecnologia, como detalha uma pesquisa divulgada pelo ScienceMag.
De acordo com o pesquisador Robert Root-Bernstein, autor do artigo, um estudo conduzido com 225 cientistas e engenheiros indicou que mais de 60% deles reconhecia o impacto direto das disciplinas artísticas em sua atuação profissional. Além disso, mais de 80% deles acreditavam que o ensino destas matérias deveria ser parte fundamental no estudo de áreas relacionadas à tecnologia.


Brincar de fazer comidinha é criar banquetes cheios de natureza e imaginação





por Ana Carolina Thomé e Rita Mendonça


Reunir pessoas para um banquete é sempre especial. Já pensou reunir pessoas para brincar de comidinha feita de terra e outros elementos da natureza?!
Assim é a oficina Cozinha da Floresta, que realizamos periodicamente. E apreciamos ainda mais quando essa brincadeira acontece em local de natureza abundante. É nesse cenário que nós e as famílias – muitas crianças! – podemos coletar ingredientes frescos e variados para “nossos pratos”. E, enquanto a coleta acontece, as crianças observam o entorno, descobrem detalhes, pesquisam texturas para propor consistências, cores e formas que vão adornar seus menus.
Mas, na verdade, a brincadeira pode acontecer em qualquer lugar. Mesmo que não seja rico em ingredientes – sementes, frutos, flores e folhas – podemos fazer uma coleta antecipada. De qualquer forma, o que não podemos esquecer é que cada época do ano oferece tipos diferentes de ingredientes. E esse olhar para a diversidade também é faz parte do aprendizado e da brincadeira.
Com o espaço preparado, as crianças e suas famílias são convidadas a participar da Cozinha. Sao convidadas a brincar. E, por mais que já tenhamos feito esses encontros muitas vezes, sempre nos surpreendemos com as relações que surgem durante a atividade. 
Os pequenos sempre chegam muito curiosos. Já pegam um potinho e uma colher de pau, enchem de terra, e começam a fazer misturas. Encanta-nos observar os gestos e a qualidade dos movimentos enquanto a criança está inteira e presente em sua ação. 
Os maiores chegam, geralmente, recusando entrar na brincadeira. “Já sou grande para isso!”, dizem e se distanciam, mas observando a brincadeira. Aos poucos – e, às vezes, sem perceber -, se aproximam. Ajudam numa mexidinha aqui, colocam um ingrediente ali. Quando menos esperamos elas estão em meio a brincadeira, inteiras e experimentando tudo. “Passe aquela semente, por favor?!”. “Gostaria de um pouco mais dessa flor”. 
E os adultos? Quando damos início à brincadeira e os convidamos todos para participar – “Vamos brincar?!” -, são eles que imediatamente levantam as mãos e dizem “SIM!”. Mas claro que existem aqueles que não se entregam logo no começo: observam, ficam por perto, vez ou outra pegam um ingrediente, o oferecem, ajudam a mistura-lo…
Por outro lado, há adultos que são coletores profissionais. Saem para explorar o entorno e voltam cheios de ingredientes. Começam fazendo isso para ajudar os filhos, mas logo estão contribuindo com os demais grupos. 
Brincar de comidinha é um ato que, quase de forma uníssona, perpassa a cultura da Infância. Difícil encontrar quem, nesse período da vida, não brincou assim, não tenha se reunido com outras crianças para fazer banquetes de natureza e imaginação.
É incrível como essa também é uma atividade que desenvolve o senso estético pois, em geral, os pratos preparados são sempre bem decorados, explorando padrões e características de diferentes elementos, buscando uma beleza orgânica.
Preparar o alimento talvez tenha sido a principal atividade coletiva que deu origem à formação dos grupos humanos, quando estávamos aprendendo a ser Homo sapiens, há mais de 200 mil anos. Por isso que, brincar de fazer comida, juntos, em família, com amigos, permite às crianças vivenciar algo essencial de nossa experiência ancestral. 
Fotos: Ana Carol Thomé

terça-feira, 6 de março de 2018

Artyara traz brinquedos educativos à ABRIN 2018




Aliar diversão e aprendizado. Esta é a proposta de brinquedos como o Trenzinho e Blocos de Letras que a Artyara destaca em seu estande.

Entre os seus lançamentos, ainda chamam atenção quatro modelos de quebra-cabeças das linhas Magic e Summer, com tamanho final de 38,5 x 31 cm, além da Coleção Cidade. A ideia é que a criança crie a sua própria paisagem a partir de um carrinho, oito peças em madeira, duas lousas e giz. As opções são: castelo, bombeiro, fazenda e polícia.

Na linha do “faça você mesmo”, a criança é convidada a montar e pintar aviões e carrinhos, enquanto a coleção Descolados consiste em um quebra-cabeça em que várias peças de formatos diferentes são encaixadas em bases com pinos fixos, formando veículos diversos.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

'O tempo das crianças é outro', diz antropóloga Adriana Friedmann

Olhar o mundo a partir dos olhos das crianças, de suas descobertas, perspectivas e sentimentos: tarefa tão desafiadora para o adulto, quanto necessária ao propósito de educar uma criança. Escutar a criança, nesse sentido- coloca-se como um pilar nesse processo.
"Essa escuta da qual falamos não é um interrogatório, não é encher a criança de perguntas", coloca Adriana Friedmann, pesquisadora, autora, consultora nas temáticas da infância, e realizadora do Mapa da Infância Brasileira, sua principal atividade dos últimos anos, em entrevista ao Catraquinha.
Afinal, que escuta é essa? Qual é a sua importância? Como ela pode se dar nas relações entre adultos e crianças? A seguir, confira um pouco das reflexões da especialista sobre essa temática e outras, como protagonismo, educação, brincadeira, tecnologia e sentimentos na infância:
Escutar a criança
"Afinal, quem escuta as crianças? Essa escuta da qual falamos não é um interrogatório, não é encher a criança de perguntas. Quando você faz uma pergunta para uma criança, ela é tão esperta que vai te responder aquilo que você quer ouvir, não necessariamente aquilo que corresponde à verdade dela.
Créditos: iStock


"O tempo inteiro a criança está descobrindo o mundo e se expressando, se colocando"
Para mim, a ideia da escuta não é escutar apenas com os ouvidos, mas também você poder entender o que a criança está expressando e colocando no mundo através das suas atividades de criança,  o brincar, as artes, o movimento, o corpo, a música, a escrita, a palavra. O tempo inteiro a criança está descobrindo o mundo e se expressando, se colocando.
Mas o que está por trás disso tudo? Em primeiro lugar, dar espaço para que a criança respire, seja mais autônoma, tenha tempo livre para ser criança. Em segundo lugar, poder entender quem é essa criança e podermos entender, enquanto pais, educadores e gestores, podermos repensar o que estamos propondo para elas.
É nessas brechas que aparecem as mensagens, pérolas, a partir das quais você vai entender melhor o que essa criança tem interesse, dificuldade, medo, o que ela gosta, quais são os desejos e fantasias. Muitas coisas ela reproduz quando  brinca, desenha e se movimenta. Ela reproduz como vê o mundo, coisas que vive em casa, medos e frustrações".
A criança protagonista
"A criança é protagonista o tempo inteiro. O temHá escolas interessantíssimas, que dão espaço para esse protagonismo, que colocam a criança nesse espaço de protagonista de verdade, ouvindo de verdade. O protagonismo acontece o tempo inteiro. Está acontecendo no recreio, quando você dá uma atividade livre para criança, está acontecendo quando o professor vira as costas e as crianças já estão ali, com sinais e códigos entre elas".
O adulto, a brincadeira e a criança
"Há uma ilusão de que poderemos controlar um filho o tempo todo. Há uma pressão tamanha na vida da criança que inconscientemente ela percebe. E não há espaço para respirar, e isso é ruim para seu desenvolvimento. Ela tem que ter autonomia, seu espaço de controle.
Créditos: iStock

"Há uma ilusão de que poderemos controlar um filho o tempo todo. Há uma pressão tamanha na vida da criança que inconscientemente ela percebe."

Há uma pressão, um direcionamento o tempo todo, e se acha ainda, apesar de tantos estudos, que o tempo livre de brincar, da criança fazer o que bem tem vontade, é perda de tempo. Na verdade, é um grande ganho para o desenvolvimento da criança, para a sua descoberta e compreensão do mundo.
Hoje temos um adulto muito mais vigiando do que propiciando situações de brincadeira livre
Brincar junto também é um elo de comunicação com a criança. É interessante brincar junto em alguns momentos, mas não ficar querendo ensinar à criança como se faz".
O tempo da infância
"As crianças brincam de faz de conta: imitam ou ressignificam a vida real. Você pode propiciar o tempo, o espaço e objetos. Quando você deixa a criança, ela constrói uma narrativa na brincadeira. A gente, por conta do tempo, acaba interrompendo essas narrativas da brincadeira. Eu sempre falo para os professores que, de uma forma inconsciente, a gente acaba podando violentando processos que a gente não acompanha. A brincadeira acabou por que o relógio diz, mas o tempo das crianças é outro"
Emoção e sentimentos
"Acho que nossa atitude de controle, de querer ensinar o tempo todo, também tem a ver com as doenças que as crianças tem tido, físicas e psíquicas, como hiperatividade. A criança que tem muita energia, agressiva, que não para um minuto, muitas vezes é medicada.
Por que será que essa criança está a mil por hora? Muitas vezes ela está pedindo socorro. Ela está agressiva por que não sabe lidar com suas emoções de outro jeito.
Em vez de encaixotá-la e medicá-la, já colocar uma tarja dizendo que ela é assim ou assado’, crie situações em que ela possa colocar energia para fora. Não é preciso ser psicólogo para isso. É claro que muitas vezes as crianças precisam ser encaminhadas para um especialista, mas esse não é o primeiro recurso".
Criança, publicidade e consumo
"É difícil falar não, mas por trás dessa fala e desse desejo [da criança, que pede coisas] há um 'presta atenção em mim'. Se a criança fica chacoalhando o adulto e pedindo algo, é porque quer o adulto com ela. O brinquedo é muito mais uma desculpa. Mas, claro, também há uma influência subliminar da propaganda nesse gesto de pedir".
Telas e desenvolvimento infantil
"Até um ano de vida, a criança vai descobrir o mundo através dos sentidos. É uma fase que precisamos oferecer espaços de experimentação: para a criança levar coisas à boca, cheirar, tocar, pisar, cair e levantar.
Créditos: iStock
"A criança fica hipnotizada pela tela, mas o corpo não se mexe, e cria uma grande ansiedade quando o adulto chega e diz que acabou"

Estamos vendo os bebês sentados nos carrinhos sempre com uma tela na frente, e com pouco contato com a natureza. E isso é uma coisa nossa, de adultos, de sociedade. A criança fica hipnotizada pela tela, mas o corpo não se mexe, e cria uma grande ansiedade quando o adulto chega e diz que acabou.
Nos primeiros anos de vida essa exposição é pouco indicada porque a criança ainda não tem maturidade cognitiva. Com as telas, ela está numa concentração mental, e o corpo está parado. Sempre coloco assim: telas para os bebês, nem pensar".
A cultura, as origens e as singularidades de cada criança
"A gente acha que conhece as crianças, mas a verdade é que a gente não conhece. De repente, você está ali com 2 ou 3 filhos, criados na mesma família, e cada um é um mundo. Não só a criança já tem um repertório cultural, familiar, mas tem um repertório próprio. Cada criança tem um jeito único, uma essência única. Mas é também quando falamos de potência: cada criança tem uma potência única que a faz única. 
Você vê muito as escolas e os educadores buscando modelos lá fora. Eu digo que os modelos podem ser inspiradores, mas temos a nossa cultura. Não podemos deixar de considerar quem é essa criança, sua família, a diversidade cultural do nosso país.  Todos somos únicos, temos uma história ancestral que é unica".

domingo, 15 de janeiro de 2017

Crianças que têm contato com música aprendem a ler e a escrever com mais facilidade


Pode ser no carro, na sala de aula ou na festa de aniversário. Ouvir música com as crianças é sempre uma delícia, certo? O contato precoce com este tipo de arte ainda é capaz de beneficiar o aprendizado do seu filho. Cantar e tocar instrumentos faz com que ele estimule áreas neuronais que serão trabalhadas futuramente em outras funções – como nos cálculos matemáticos ou na leitura de textos.

Tudo começa na fase de musicalização: de forma lúdica, sem ainda formalizar conhecimentos, a criança desenvolve a percepção auditiva. “Ela é capaz de distinguir um som agudo de um som grave. Se ouvir uma valsa e, em seguida, uma marcha, perceberá também a mudança de ritmo”, explica Margarete Kischi Diniz, coordenadora de música do Colégio Porto Seguro, na unidade Morumbi (SP). Essa percepção só é possível porque há um estímulo na região cerebral denominada córtex auditivo. Além disso, ouvir uma canção trabalha a coordenação motora, já que seu filho sentirá o ritmo e o reproduzirá com movimentos corporais – aqueles passos de dança que encantam a família.

Aos 6 anos, em geral, a escola passa a formalizar o ensino musical, apresentando técnicas para tocar instrumentos, notas musicais e partituras. E é justamente esse tipo de conhecimento que auxiliará o processo de alfabetização da criança. “Os princípios de aprender uma canção e de ler um texto são muito parecidos. É a transformação da língua falada em símbolos que precisam ser decodificados”, esclarece Antonio Carlos de Farias, neurologista do Hospital Pequeno Príncipe (PR). Compare: a partitura passa a ser o símbolo que traduz o som ouvido. A palavra escrita segue a mesma lógica, já que é uma representação no papel do que é ouvido nas conversas.

Essa relação foi também comprovada por um estudo recente organizado pela Northwestern University, nos Estados Unidos. Crianças de 9 a 10 anos foram divididas em dois grupos: o primeiro teve lições de música por dois anos e o segundo, nenhum contato escolar com a disciplina. Após o período, os cientistas descobriram que aquelas que aprenderam a cantar e a tocar instrumentos tiveram melhor desempenho em leitura e em escrita. Elas conseguiam distinguir sons com mais facilidade que as demais e não tinham dificuldade de concentração em ambientes agitados.

Além disso, a música é um excelente incentivo à linguagem, por auxiliar na aquisição de vocabulário. Até a interpretação de texto é beneficiada pelo contato com as canções. “A memória operacional se desenvolve e faz com que a criança escute uma música e preste atenção ao que está sendo cantado. Ela consegue absorver a mensagem e o sentimento transmitido. Esse mesmo processo é encontrado ao ler um livro, que exige a concentração para dar significado à história”, explica o neurologista. Acredite: até o aprendizado de matemática é auxiliado, considerando que os números são símbolos, assim como as notas musicais.
Em casa


De acordo com a lei nº 11.769, de 2008, a música deve ser conteúdo obrigatório na Educação Básica de todas as escolas brasileiras. O objetivo da exigência não é formar músicos, e sim desenvolver a sensibilidade e a integração dos alunos. Mas atenção: você também deve estimular o contato de seu filho com a música em casa.

Se a criança perceber que os pais valorizam este tipo de arte, também tenderão a apreciá-lo. Não adianta apresentar uma canção de forma artificial – a introdução precisa ser lúdica. Presenteá-la com um tamborzinho ou dançar junto com ela são formas criativas de iniciar o contato.

É importante que você tome certos cuidados: não coloque o som em um volume muito alto, já que a audição da criança ainda não está totalmente amadurecida. E coloque um ritmo compatível à faixa etária – um bebê preferirá algo calmo, como música clássica. O rock pesado pode esperar um pouquinho, certo?

Aproveite o momento de escutar música em família para enriquecer o repertório cultural do seu filho. Apresente a ele tanto compositores nacionais como internacionais, para que, aos poucos, ele desenvolva uma preferência pessoal. E mais: que tal, a cada faixa, contextualizar a obra? Diga em que época a canção foi criada, em que país ela se originou, como são os costumes daquele local. Será uma brincadeira divertida – e os resultados serão para a vida toda!

Fonte: Revista Crescer

Escola no contraturno foca no desenvolvimento socioemocional

A cena é divertida. Enquanto carregam pequenos potes de areia, meia dúzia de crianças passam por obstáculos e se equilibram em caixotes de madeira. Com a ajuda dos colegas, a missão é encher uma caixa do outro lado do parquinho para encontrar o tesouro escondido pelo capitão Barba Polvo. O que parece ser apenas uma oficina de parkour infantil, na verdade faz parte de um conjunto de atividades de férias realizadas no centro de educação AfterSchool, localizado no Alto de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo (SP). Por lá, as brincadeiras e os desafios são estratégias para desenvolver competências socioemocionais de forma descontraída.
O espaço surgiu no início do ano passado, com a intenção de ser um centro especializado no ensino socioemocional. Para contribuir com a formação das crianças nas suas dimensões intelectuais e afetivas, no período do contraturno escolar são oferecidas diversas atividades de inglês, parkour, oficina maker, circo, artes, dança, culinária, capoeira e inteligência corporal. A ideia não é que elas façam apenas um curso extracurricular durante todo o ano, mas possam aprender a demonstrar empatia, resolver problemas, manter relações sociais, lidar com suas emoções, trabalhar em grupo e desenvolver uma série de outras competências essenciais para a vida no século 21.
Com turmas multietárias, os cursos acontecem no período da manhã ou da tarde. As famílias ainda podem optar por quantos dias da semana as crianças irão participar das atividades no contraturno, que são voltadas para um público com idades entre 9 meses e 12 anos.
A proposta surgiu de uma série de estudos que tornavam evidente a necessidade de cuidar do desenvolvimento social e emocional das crianças, que muitas vezes é deixado de lado pelas escolas. De acordo com Leticia Lyle, sócia e diretora pedagógica do AfterSchool, a falta de habilidades socioemocionais é um dos motivos precursores de boa parte das dificuldades de aprendizagem encontradas pelos professores nas salas de aula. “Todo educador fala que trabalha com colaboração, todo mundo quer formar um aluno cidadão. Mas onde isso está realmente colocado? A educação do século 21 passa por um trabalho muito intencional de competências”, defende ela.




Crédito: Marina Lopes / Porvir
No centro de ensino AfterSchool, a intencionalidade mencionada por ela está organizada em uma matriz de competências, que trabalha curiosidade, colaboração, autenticidade, solidariedade e responsabilidade. Esse modelo foi elaborado a partir de referências da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) e pesquisas do Casel (Collaborative for Academic, Social, and Emotional Learning), além de também considerar habilidades presentes no modelo de Chicago e no currículo australiano. “Nós mapeamos essas competências e fizemos a nossa escolha junto com os professores”, explica Letícia.
Como estratégia para desenvolver essas competências, o centro de educação trabalha com um modelo de missões inspirado na experiência da escola norte-americana Quest to Learn, criada pelo Institute of Play. A ideia é que as crianças estejam envolvidas com um desafio que conecta todas as experiências de aprendizado. “A missão é uma grande brincadeira, que nos ajuda a pensar de forma lúdica quais competências podemos trazer”, menciona a coordenadora pedagógica do espaço, Flávia Montagna.
No começo de cada mês, toda a equipe pedagógica do AfterSchool se reúne para elaborar uma nova missão, sempre baseada em uma das grandes competências apresentadas na matriz. A partir daí, também é realizado um planejamento semanal para trabalhar outras habilidades em unidades menores, tudo alinhado com os conteúdos das oficinas e laboratórios de desenvolvimento. Segundo Flávia, essas missões devem ser cativantes e curiosas para manter o interesse dos alunos.
Os temas podem ser os mais variados, desde engajar as crianças em uma ação voluntária até desvendar um mistério. Em uma das atividades do último ano, por exemplo, para trabalhar curiosidade e abertura a novas experiências, a turma foi convidada a viajar para um planeta desconhecido. Com os objetivos de aprendizagem definidos, na culinária criaram diferentes tipos de pedras comestíveis encontradas por lá e na oficina de parkour fizeram o circuito como se estivessem explorando o novo planeta.
“A aula requer muito planejamento. Quando eu vejo as competências que devem ser trabalhadas naquela semana, já tenho noção das atividades que vou desenvolver”, conta o professor Marcello Dominichelli, responsável pelas oficinas de parkour. Ele admite que em alguns momentos é preciso quebrar a cabeça para montar uma atividade, mas o trabalho coletivo facilita esse processo.
Para dar conta de estabelecer essas conexões, os professores participam de formações e encontros de planejamento coletivo. “O professor precisa ser muito sensível para sentir e conhecer cada criança. Ele também precisa ser muito criativo, já que em alguns momentos trabalhamos com temas abstratos. É mais difícil do que ensinar português, matemática e inglês porque você está formando um cidadão”, avalia a professora Nicole Reiche Pereira, que geralmente trabalha com crianças de 3 a 8 anos durante o período do curso regular.
Na primeira semana das férias, a turma trabalhou colaboração. Para isso, os educadores criaram a história do capitão Barba Polvo, um pirata que tem uma barba cheia de tentáculos, como descreveu Eric, 4, que também participa do curso regular. “O tesouro dele estava aqui no After e a gente teve que achar”, conta o menino. A sua colega, Manuela, 5, também se envolveu com o desafio e garante que para encontrar o tesouro foi preciso trabalhar em equipe: “Se fosse alguém sozinho atrás do tesouro, os outros não iriam achar.”
De acordo com a equipe da escola, os resultados desse trabalho de desenvolvimento socioemocional são percebidos no dia a dia das crianças, seja por observações dos educadores ou até mesmo pelos registros de portfólios e rubricas de avaliação. “Nós percebemos que as crianças falam e demonstram valores de atividades que já aconteceram. Elas também levam muita coisa para casa”, afirma a coordenadora pedagógica do espaço, Flávia Montagna.
Dentro de casa, a médica Juliana Giorgi diz que já consegue perceber o desenvolvimento do filho, Pedro, que entrou no AfterSchool em agosto quando ainda tinha 1 ano e meio. “Ele deu um salto muito grande na sociabilidade, está aprendendo a dividir e conviver em sociedade. A escola é tão dinâmica, que eu vejo ele sempre muito empolgado”, avalia.

“Não aguento ir ao colégio”: Diego, de 11 anos, suicida-se por bullying na escola



Hoje queremos compartilhar uma história triste com a qual todos nós podemos refletir muito: Diego, um menino de apenas 11 anos, decidiu tirar a sua própria vida no dia 14 de outubro de 2015. A razão? O bullying que ele sofria na escola.

Todos nós sabemos o que é o bullying e o que este assédio psicológico e físico é capaz de fazer na vida das pessoas mais jovens. Mas fica a reflexão… como um menino tão pequeno foi capaz de tomar esta decisão? Nestas situações, não apenas nos chama a atenção a perda de uma vida tão jovem, mas também nos perguntamos se instituições, como a própria escola ou os serviços sociais, não desconfiaram nada a respeito da situação pela qual Diego estava passando.
A OMS, Organização Mundial da Saúde, publicou um informativo há pouco tempo no qual revelou que todos os anos cerca de 600 mil jovens se suicidam em todo o mundo com idades compreendidas entre os 14 e os 28 anos. Dentro desta cifra, o bullying é a causa de pelo menos metade dos casos.
Trata-se de um drama social que todos nós devemos compreender para combater com as estratégias mais adequadas.
Hoje, devemos conhecer o caso de Diego, este menino de Madri, Espanha, que encontrou na morte a única solução para os seus problemas da vida.

O bullying na escola e o adeus a uma criança especial

Pais-de-Diego
O menino vivia em Leganés, um bairro de Madri onde passou os 11 anos de sua vida. Diego não quis mais seguir adiante, não quis mais crescersó desejava ser livre de sofrimentos, de ataques e de pressões que sofria no colégio.
E por isso ele decidiu se jogar da sacada do apartamento onde morava, no quinto andar. Há quem pense que o suicídio é um ato de covardia por não saber enfrentar as dificuldades da vida. Entretanto, a verdade é que ninguém pode criticar a opção que acaba sendo escolhida pela pessoa em um momento como esse.
Neste caso estamos diante de uma criança e a realidade adquire um tom muito grave. Tanto é assim que os pais de Diego decidiram publicar a carta de despedida que seu filho lhes deixou e denunciar o caso à presidente da Comunidade de Madri e ao conselheiro de educação.

O caso de Diego, um bom aluno que não queria ir à escola

Diego tirava boas notas, era um bom aluno e seus pais estavam orgulhosos dele. A sua mãe contou que em algumas ocasiões, quando ela o buscava na escola, ele pedia que ela fosse embora rapidamente, correndo para fugir de algo ou alguém.
Ele só parecia verdadeiramente feliz quando chegavam o verão e as fériasquando ele ficava livre das aulas ou do seu colégio em Leganés. Os pais lembram também que durante quatro meses ele esteve afônico. Uma afonia nervosa que, de acordo com o médico, era certamente causada por algum impacto.
A família nunca soube ao certo que o motivo realmente era o que eles temiam e qual era a realidade que Diego vivia na escola.
Por outro lado, o próprio centro, quando deu início às investigações, explicou que a criança não apresentava nenhum problema e que não havia denunciado nenhuma incidência.
Fica claro que, em algumas ocasiões, os recursos de um centro não são suficientes para detectar o abuso, mas é possível intuir a tristeza de um menino. Os professores a veem, e os próprios colegas de classe que observam os acontecimentos simplesmente se calam.
Atualmente não há nenhum responsável que possa ser julgado ou investigado por causa da morte deste menino, e por isso os pais de Diego buscam, antes de tudo, colocar em evidência a gravidade do bullying, deste abuso escolar que levou a vida de seu filho tão pequeno.

A carta de despedida de Diego

Menino-mostrando-mensagem-de-parar-com-o-bullying
Diego decidiu escrever uma carta de despedida para seus pais. Ele deixou uma nota que dizia “Vejam em Lucho” na janela da qual ele pulou rumo ao vazio.
Lucho era seu bicho de pelúcia favorito, aquele que em seu quarto guardava em silêncio as últimas palavras da vida de um menino de 11 anos infeliz, que dizia adeus aos seus pais de um modo maduro, admirável e emotivo. Porque Diego era, sem dúvida, um menino especial.
As frases que ele deixou foram as seguintes:
Papai, mamãe, estes 11 anos em que estive com vocês foram muito bons e eu nunca me esquecerei deles assim como nunca esquecerei de vocês. Papai, você me ensinou a ser uma boa pessoa e a cumprir as promessas, e além disso, brincou muito comigo. Mamãe, você cuidou muito de mim e me levou a muitos lugares. Vocês dois são incríveis, mas juntos são os melhores pais do mundo.
Tata, você aguentou muitas coisas por mim e pelo papai, e eu agradeço muito e te amo muito. Vovô, você sempre foi muito generoso comigo e sempre se preocupou. Te amo muito. Lolo, você me ajudou muito com as minhas lições de casa e me tratou muito bem.
Desejo sorte a você para que possa ver Eli. Digo isso porque eu não aguento mais ir ao colégio e não há outra maneira para não ir. Por favor espero que algum dia vocês possam me odiar um pouquinho menos. Peço que vocês não se separem, mamãe e papai, pois somente vendo-os juntos e felizes eu também serei feliz. Eu sentirei saudades e espero que um dia possamos voltar a nos ver no céu. Bom, me despeço para sempre.
Assinado Diego. Ah, uma coisa, espero que você encontre um emprego bem rápido Tata.”
Diego González.
Carta de despedida de Diego
É impossível ler estas linhas sem se emocionar, sem se colocar na pele dos pais e imaginar o que eles estão vivendo. Por isso, é importante que todos nós, desde as nossas realidades e possibilidades, nos conscientizemos da realidade do bullying escolar partindo destes pilares:
  • É vital que eduquemos nossos filhos em inteligência emocional, empatia, em reconhecer e respeitar o outro como a si mesmo.
  • A saber intuir e detectar os comportamentos agressivos na escola, na rua e em casa e sempre denunciá-los.
  • Saber atender às vítimas sem excluí-las. É necessário saber oferecer a elas estratégias de enfrentamento, reforçar a sua autoestima e conseguir fazer com que elas recuperem a ilusão pela vida, pelo seu futuro, por seus sonhos.
  • Entender que o abuso não ocorre somente nas escolas. Atualmente, o bullying chega também às redes sociais, e ao espaço online ao qual às crianças também têm acesso.
Sabemos que a morte de Diego não será a última, assim como as cifras da OMS nos revelam; no entanto, esperamos que estes números se reduzam ano a ano e que todos possamos participar desta conquista tão importante.

Fonte: Melhor com Saúde