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quarta-feira, 27 de setembro de 2017

12 mitos populares sobre o funcionamento do cérebro


A maneira como nosso cérebro trabalha ainda é cercada de mistérios. E isso faz com que muitas lendas e notícias falsas circulem por aí. Selecionamos algumas das mais comuns, devidamente desbancadas em um livro publicado por cientistas brasileiros.

1. “Usamos só 10% da capacidade mental”

Eis uma das frases mais famosas – e erradas! – que ouvimos sobre a central do pensamento. Não à toa, ela é uma das primeiras apresentadas em Caçadores de Neuromitos, obra organizada pelos psicólogos Larissa Zeggio, Roberta Ekuni e Orlando Francisco Bueno, que se conheceram na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A origem da história dos 10%, como boa parte das outras mentiras, vem da interpretação equivocada de evidências científicas. “Não faz sentido do ponto de vista evolutivo ter um cérebro que demanda tanta energia para utilizar só um pedacinho”, desvenda a neurocientista Karina Possa Abrahao, do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos. Concorda que seria um desperdício danado? Hoje se sabe que todos os neurônios estão ativos em algum momento do dia – inclusive quando dormimos.

2. “O neurônio é a única célula que importa no sistema nervoso”

Neurônios são muito importantes, mas não moram sozinhos no crânio. Eles dividem espaço com as células da glia, um grupo variado e cheio de habilidades. Durante muito tempo, essas unidades foram consideradas apenas uma cola que mantinha a massa cinzenta intacta. “Descobrimos recentemente que elas têm um papel primordial e estão relacionadas até com a formação das memórias“, revela o biólogo Michael Rocha, fundador do Glia News, um site de difusão de novidades sobre essas ilustres desconhecidas. O mau funcionamento dessas células estaria ligado a doenças como depressão, esquizofrenia, Parkinson e Alzheimer.
OS TIPOS DE CÉLULAS GLIA
Astrócitos
Fazem o meio de campo entre os neurônios, conectando-os. Interagem com diversos neurotransmissores.
Oligo-dendrócitos
Responsáveis pela estrutura da bainha de mielina, capa que protege a cauda dos neurônios e facilita a troca de impulsos.
Microglias
Integram o sistema imunológico. Impedem a invasão de agentes infecciosos e matam as células defeituosas.

3. “Há coisas que aprendemos até os 3 anos de idade. Depois não tem mais jeito”

Por muitos anos, acreditou-se que esse seria um período crítico para a aquisição de conhecimentos básicos, como a linguagem. A ideia surgiu da observação de que, após o terceiro ano de vida, ocorre uma queda no número de sinapses, as conexões entre os neurônios. “Porém, nada impede um indivíduo de aprender algo ao fim da primeira infância”, afirma a psicóloga argentina Julia Hermida, da Unidade de Neurobiologia Aplicada, em Buenos Aires. Tanto é que, com esforço, adquirimos novas capacidades em todas as faixas etárias. O corte nas ligações neurais é um processo para otimizar o uso de energia pelo cérebro.
O ESTÍMULO PARA SEU FILHO
Como ajudar a criança pequena a ter um bom desenvolvimento cerebral? Para Julia Hermida, não há tanto segredo. “É preciso acompanhá-la nas brincadeiras, oferecendo desafios que não sejam nem muito fáceis nem muito difíceis para a idade”, diz.

4. “O teste de QI é a única maneira de medir a inteligência de alguém”

Ele reina há um século como símbolo máximo de status intelectual. No imaginário popular, estar acima dos 100 pontos é sinal de mente iluminada. Ficar abaixo dos 70 torna-se uma sentença de fracasso. Mas a ciência vem mudando seus conceitos sobre o teste. “Ele é válido apenas se aplicado junto a outras avaliações e no contexto certo, como na detecção da dislexia”, ilustra a psicóloga Carolina Nikaedo, pós-doutoranda da Universidade de Luxemburgo. Hoje se valorizam muito mais outros aspectos, como a inteligência emocional — e não só o raciocínio lógico.

5. “É possível obter novas habilidades durante o sono”

As estratégias para “aproveitar melhor” a noite começaram em 1900 — na época, achava-se uma perda de tempo passar tantas horas deitado. Experts criaram máquinas para ensinar matemática ou geografia na madrugada. “O problema é que nenhuma delas funcionou pra valer nos estudos”, relata o biólogo Francisco Dubiela, da Universidade do Estado de Santa Catarina. Aqui não carecemos de tecnologia: o bom e velho sono ajuda a consolidar tudo que aprendemos quando estamos acordados.

6. “O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) não existe de verdade”

Marcado por agitação, falta de foco e prejuízos na escola, o TDAH ainda gera acalorados debates. Há quem acuse a indústria farmacêutica de ter inventado o distúrbio para incrementar a venda de remédios. Pura balela. “Os primeiros relatos sobre a condição foram publicados em 1902, antes de os laboratórios possuírem um tratamento adequado”, desmitifica o psiquiatra Luis Augusto Rohde, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Para evitar diagnósticos errados, é importante recorrer a uma equipe multiprofissional, formada por pediatra, psicólogo, neurologista e psiquiatra.
TEM CONTROLE?
Os médicos lançam mão de remédios e terapia cognitivo-comportamental contra o TDAH. “Nós estabelecemos medidas para que o paciente lide com as dificuldades do dia a dia e até conseguimos diminuir a dose dos fármacos com o tempo”, esclarece a neuropsicóloga Mônica Miranda, da Unifesp.

7. “Todo esquecimento já é sinal de demência”

Mais de 36 milhões de pessoas têm Alzheimer no mundo, taxa que vai dobrar em 20 anos. É compreensível que as falhas de memória deixem qualquer um desconfiado. Mas tenha calma. “O envelhecimento envolve um processo de atrofia do cérebro. Portanto, um grau de esquecimento é normal”, explica a neurocientista Liane de Vargas, da Universidade Federal do Pampa (RS). Para aliviar isso, é necessário estimular os neurônios. Vale ler livro, fazer palavra cruzada, viajar… Caso as falhas se tornem frequentes, consultar o médico é a atitude número um. O neurocientista argentino Ricardo Allegri, do Instituto de Investigações Neurológicas de Buenos Aires, deu uma aula sobre o tópico no Congresso Mundial de Cérebro, Comportamento e Emoções (Brain 2017), recém-ocorrido em Porto Alegre. Veja abaixo como ele diferencia os “brancos” inofensivos de uma demência.
COMO DISTINGUIR
Normal
Demora em aprender fatos novos e se recordar dos detalhes de uma situação antiga. A queixa vem da própria pessoa.
Doença
Passa aperto para se localizar, seguir direções, se lembrar de datas e eventos recentes. Família e amigos notam antes.

8. “Os lados direito e esquerdo do cérebro têm poderes distintos”

Existem, sim, variações de processamento entre as duas porções do cérebro. “Na maioria da população, a linguagem se concentra no hemisfério esquerdo”, exemplifica o neurologista Newton Canteras, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo. Mas não dá pra dizer que alguns usam mais a parte esquerda ou a direita e isso estaria por trás de dotes matemáticos ou artísticos exacerbados, como vira e mexe aparece nas redes sociais. A massa cinzenta está completamente interconectada e muitas de suas funções dependem de estruturas nos dois lados.

9. “Ser assassino é apenas um desvio de caráter”

Nem sempre. Infringir a lei pode ter a ver com falhas na cabeça. Quem garante é o psicólogo britânico Adrian Raine, da Universidade da Pensilvânia (EUA). Em seus trabalhos, ele descobriu que psicopatas costumam ter um córtex pré-frontal menor. Essa região do cérebro responde por regulação de impulsos e empatia. “Somado a fatores ambientais, como morar num bairro ruim, esse defeito leva a ações violentas”, ensina Raine, que também esteve no Brain 2017. O especialista acredita ser possível impedir futuros casos de assassinato com políticas para reduzir a pobreza e melhorar a saúde de todos os estratos sociais.

10. “Maconha mata neurônios”

“Essa acusação se iniciou com um estudo malfeito, encomendado para justificar a guerra às drogas nos anos 1960 e 1970”, contextualiza o psicofarmacologista Fabrício Pamplona, diretor científico do laboratório Entourage, de São Paulo. Na experiência, macacos foram expostos a quantidades absurdas de Cannabis sativa — algo em torno de 60 cigarros por dia. Isso transformou a planta em tema tabu até hoje. A neurociência indica que a maconha não mata neurônios, mas o uso crônico pode incitar, se houver propensão, alguns transtornos psiquiátricos. Na contramão, compostos da planta são estudados pelo potencial de tratar esclerose múltipla, epilepsia, Parkinson…

11. “Videogame faz mal à cabeça”

Ele foi encarado por muitos anos como vilão — ainda mais depois daqueles massacres americanos, em que jovens entravam em escolas atirando nos alunos e nos professores. Sempre saíam reportagens dizendo que o infrator era influenciado por um jogo qualquer. “Mas é muito simplista apontar o dedo para o videogame diante de problemas de violência. Eles envolvem inúmeros fatores”, defende o psiquiatra Felipe Picon, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. As pesquisas atuais mostram, aliás, o inverso: os jogos eletrônicos fazem bem ao cérebro e dão uma força no combate e na recuperação de condições como depressão, autismo, TDAH e estresse pós-traumático.
ATÉ QUE PONTO?
Aposte no bom senso. Não é legal passar várias horas seguidas na frente de uma tela. O limite varia de acordo com o caso. Crianças e adolescentes precisam ser supervisionados pelos pais. Por lei, todos os games têm uma classificação etária. Não dá pra permitir que um pequeno de 5 anos brinque com um produto destinado a maiores de 18.

12. “Ginástica cerebral é 100% eficaz”

Da mesma forma que vamos à academia para fortalecer os músculos, deveríamos fazer exercícios mentais para deixar a cabeça afiada. Há inclusive empresas que vendem esse tipo de serviço, baseado nos achados científicos de treinamentos que aumentam as sinapses. “As redes de neurônios ficam mais fortes à medida que as utilizamos”, reflete o neurocientista Fernando Louzada, da Universidade Federal do Paraná. O dilema é que não está comprovado que a tal ginástica traria benefícios reais para o dia a dia ou se tornaria o praticante bom em uma tarefa específica. “Ela não vai servir para curar doenças sérias, como o Alzheimer”, frisa Louzada. O recado é manter o cérebro ativo e cheio de estímulos durante a vida toda.
HÁBITOS BONS PARA A CUCA
Coma…
Peixes, grãos integrais, folhas verde-escuras e frutas vermelhas são uma boa pedida.
Mexa-se…
Investir em um esporte incrementa a chegada de oxigênio e nutrientes à cabeça.
Estude…
O aprendizado é enriquecedor em vários sentidos e cria novas conexões entre os neurônios.
Este conteúdo foi publicado originalmente em Saúde
FONTE: Revista Superinteressante

Implante “desperta” homem em estado vegetativo há 15 anos


Um homem que estava há 15 anos em estado vegetativo moveu a cabeça e arregalou os olhos após receber estímulos elétricos no nervo vago, um dos principais responsáveis por conectar o cérebro ao resto do corpo.
Em uma cirurgia de 20 minutos, um pequeno aparelho elétrico foi implantado no pescoço do paciente, que perdeu a consciência após sofrer ferimentos graves na cabeça em um acidente de carro em 2002. Após um mês recebendo pequenos choques na região, ele recobrou traços superficiais de consciência: se mantém alerta enquanto uma história é lida em voz alta, e arregala os olhos quando alguém se aproxima de seu rosto. Ele também é capaz de mover a cabeça a pedido dos médicos – embora demore cerca de um minuto para completar a tarefa. A melhora visível no quadro clínico foi acompanhada de um aumento equivalente na atividade do sistema nervoso, nas áreas responsáveis pela consciência.
“Potencializar o envio de informações pelo nervo vago ao cérebro ajuda a restaurar a consciência mesmo após muitos anos em estado vegetativo, desafiando, assim, a crença de que a perda de consciência é irreversível após 12 meses”, afirma o artigo científico, publicado na Current Biology. “A conexão direta entre o núcleo onde se origina o nervo vago e o tálamo [região do cérebro responsável por regular o sono, a consciência e o estado de vigília] pode estar na origem do aumento significativo da atividade no nível do córtex.”
O córtex é a camada mais externa do cérebro – onde ficam os sulcos que dão ao órgão sua aparência característica. Lá residem linguagem, emoção, memória e outras funções complexas. O tálamo, por sua vez, faz a conexão entre o córtex e regiões evolutivamente mais primitivas do cérebro. Uma de suas funções é colher os sinais brutos dos órgãos sensoriais (como olhos e ouvidos) e enviá-los às áreas em que eles serão processados e transformados nas cores e sons que conhecemos.
O sucesso do implante muda tudo nas discussões sobre eutanásia não-voluntária ativa – quando o médico, à pedido da família, põe fim à vida de um paciente que não pode ser consultado sobre a decisão.
Se o método anunciado no artigo de hoje for capaz de devolver níveis superficiais de consciência a pacientes que estão há muitos anos em estado vegetativo, talvez passe a ser possível consultá-los sobre a decisão de encerrar a própria vida – situação em que a eutanásia já é autorizada em pelo menos seis países, entre eles nossa vizinha Colômbia e o Canadá.
Críticos do implante anunciado hoje lembram que talvez seja cruel despertar pacientes e torná-los conscientes de sua situação penosa se não for possível levar a recuperação ao próximo nível e trazê-los de volta a um estado de consciência plena. “Eu não posso responder a essa pergunta”, afirmou ao The Guardian Angele Sirigu, pesquisadora do Instituto de Ciências Cognitivas Marc Jeannerod, em Lyon, na França, e participante do estudo. “Pessoalmente, eu acho que é melhor saber, mesmo se o estado é grave. Assim você pode decidir se quer viver ou ser submetido a uma eutanásia.”
Outros especialistas são mais otimistas, e afirmam que, após o uso de estímulos elétricos para superar o isolamento e estabelecer alguma forma de comunicação com o paciente, talvez seja possível, com a aplicação simultânea de outras terapias, fazê-lo voltar a falar. O consenso, porém, é que é preciso encarar o avanço com ceticismo saudável. Ao New York Times, o pesquisador James Bernat, da Faculdade Dartmouth, afirmou que a pesquisa é “provocativa, mas não definitiva”, e que ainda são precisos estudos para avaliar que tipo de paciente o método pode ajudar.
Fonte: Revista Superinteressante

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Agradecer não é educação, mas sim sinal de um poder extraordinário


Agradecer, para muitos, é um gesto de cortesia e educação quase automático. A gente agradece quando recebe um presente, quando alguém faz um favor ou quando as pessoas têm uma atitude gentil. No mais, parece não ser importante agradecer por alguma coisa. A gratidão, então, se reduziu a algumas circunstâncias específicas, basicamente de cunho social.
Inclusive nessas situações pontuais onde cabe agradecer, muitas vezes a gratidão não é sentida do fundo do coração. Somente nos casos extremos dizemos esse “obrigado” com total convicção. E passado um tempo o sentimento se dissipa.
Haverá quem pense que isto não é o certo. Trata-se justamente disso: dizer “obrigado” no momento certo e, se possível, devolver o favor, ou a atenção que nos deram. Para que mais? Embora no mundo atual isso seja verdade, agindo dessa forma na verdade estamos banalizando a gratidão. Esquecemos que esta é uma força extraordinária, que contribui para termos uma melhor saúde mental e que muitas vezes desperdiçamos.

Agradecer é muito mais do que dizer “obrigado”

A gratidão é um sentimento alegre. Inclusive se o agradecimento se deve a alguma coisa que alguém fez em um momento triste. Nestes casos, agradecer nos remete a um fato agradável que nos enche de satisfação. De fato, a palavra “gratidão” vem de “graça”. E “grato” se traduz como alguma coisa que nos causa bem-estar ou complacência.
Agradecemos a alguém quando existe a consciência de que recebemos mais do que oferecemos. Por isso, imediatamente surge o sentimento de que se obteve um ganho. Então, espontaneamente surge a necessidade de agradecer por esse “extra” que recebemos.
A gratidão implica não apenas uma forma de cortesia, mas também uma experiência de satisfação, de alegria e, por que não, de felicidade. Quem está agradecido, está feliz. E mais feliz é quem é consciente da grande quantidade de motivos que tem para se mostrar agradecido.



Por que para muitas pessoas é difícil agradecer?

Há muitas pessoas que sentem que não têm nada a agradecer aos outros. Enumeram detalhadamente as vezes em que precisaram de alguma coisa e não receberam a ajuda esperada. Ou a infinita quantidade de situações em que deram alguma coisa aos outros e não foram correspondidos. A sua balança entre o que dão e o que recebem sempre se inclina de forma oposta à gratidão.
Provavelmente existe uma lógica onde os outros estão sempre em dívida. A pessoa espera dos outros mais do que eles podem dar e por isso, obviamente, sempre fica frustrada. Acha que poderiam “ter dado mais”. Então, por que agradecer?
Quem pensa assim costumam ser pessoas muito mimadas ou cujo ego foi muito exaltado. Quando existe uma grande dose de narcisismo, o que os outros oferecem de si nunca será suficiente para elas, a mesma coisa com o que a vida lhes proporcionar. Sempre sentem que merecem mais e, obviamente, existem muitos mais motivos para se queixar do que para agradecer.

A gratidão tem poder

O agradecimento é algo que se dá ao outro, ou a alguma coisa abstrata. Pertence ao mundo do dar, não do receber. Mas, como dissemos anteriormente, só o fato de estar nessa postura de gratidão implica um gosto, uma satisfação, um tipo de felicidade. Também enobrece o coração.
Se não fosse pelas ações das outras pessoas, provavelmente sequer estaríamos vivos.Se estamos é graças a uma mãe que nos gestou, que sofreu as dores do parto para dar à luz e que preservou a nossa vida quando não podíamos dar conta de nós mesmos. Não importa se ela mesma não estava pronta para ser mãe, ou se poderia ter feito isto melhor. Só o fato da maternidade já implica uma oferta. Também contam as pessoas que nos ajudaram a nascer, a crescer, a não morrermos nesses primeiros anos vulneráveis.
Daí para frente há os professores que nos instruíram, colegas de brincadeiras, talvez amigos que nos ouviram, amores que talvez se doaram por nós, talvez pessoas que confiaram no nosso próprio trabalho. Nosso dia a dia é possível graças a muitas pessoas, mas às vezes não percebemos isto. Não somos capazes de ver a sua grande contribuição. Em vez disso, nos concentramos no que não fazem.
Viver de forma agradecida é viver muito perto da felicidade. Mais do que uma virtude, ou um valor, é uma atitude diante da vida. Só dá para agradecer se a gente for humilde. Se compreendemos que ninguém nos deve nada, nem tem a obrigação de nos agradar. Quando entendemos isso, damos um grande passo para a frente.

A gratidão muda vidas.

Fonte: A Mente Maravilhosa

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Entenda o que há de errado com a memória de Dory



P Sherman 42 Wallaby Way, Sydney, NSW. Se você assistiu ao filme Procurando Nemo, lançado pela Disney em 2003, é provável que conheça o endereço memorizado por Dory tão bem quanto o de sua própria casa. No filme, a peixinha azul sofre de perda de memória recente, mas se esforça e consegue guardar o endereço na Austrália, essencial para encontrar Nemo e resolver a trama.

No novo filme do estúdio, Procurando Dory, a peixinha é a protagonista, e parte oceano adentro em busca de seus pais após uma série flashbacks. “Dory tem amnésia anterógrada, ela não consegue registrar as coisas", explica Paulo Mattos, neurocientista do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR). "Isso acontece porque ela provavelmente teve uma hipóxia neonatal, ou seja, ela ficou sem oxigenação no cérebro quando saiu do ovo e sofreu uma lesão em uma região chamada hipocampo."

Há duas regiões no cérebro responsáveis por guardar memórias. Uma é o córtex. Ele é mais resistente, e lá ficam lembranças mais antigas e importantes. Outra é o hipocampo. “Essa é a memória operacional — em inglês, working memory —, que é equivalente à memória RAM do computador”, aponta Mattos. Ou seja, é a memória usada pelo nosso cérebro para interagir com pessoas e objetos.

Nada fica salvo nessa espécie de arquivo temporário. Já pensou se você se lembrasse de cada vez que foi ao banheiro na vida? A finalidade dessa memória é prática: permitir que você, por exemplo, se lembre de pegar o copo d’água em vez de esquecê-lo cheio no filtro e ir embora da cozinha com sede. E é lá que está o problema de Dory.

Toda a memória que está protegida pelo córtex já foi, um dia, uma memória de menor importância, que passou pelo hipocampo. É como se o cérebro analisasse o que fica armazenado nessa pasta de arquivos temporários e elegesse o que é mais relevante para ser guardado no HD. Se seu hipocampo esquece tudo rápido demais, não dá tempo de guardar nada. O resultado é que Dory não se lembra nem de sua infância, nem do que Marlin acabou de lhe dizer.

“O arquivo de memórias mais antigas, chamado córtex cerebral, é muito resistente. É por isso que pacientes de Alzheimer muitas vezes não sabem nem que dia é hoje, mas se lembram do que faziam na infância e do endereço da rua em que moravam”, afirma o médico. “Já os arquivos recentes ficam na região chamada hipocampo, que envelhece e adoece com mais facilidade.”

Uma pessoa que sofra uma parada cardiorrespiratória ou sobrevive a um afogamento também pode perder parte do hipocampo por falta de oxigênio. Mas o que já estava salvo no córtex fica lá. Ela só perderá os registros do que acontecer após o acidente.

Para o professor, a presença de uma personagem com deficiência cognitiva em uma animação é essencial para a sensibilização da sociedade em torno do tema. "É ótimo ter um personagem que fale abertamente sobre isso. Muitas pessoas têm problemas de memória, por várias causas diferentes", ressalta. Com o perdão do trocadilho, lembre disso. 

*Com supervisão de Isabela Moreira

Fonte: Revista Galileu

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Rede de neurônios artificiais aprende a usar linguagem humana

Rede de neurônios artificiais aprender a usar linguagem humana
O modelo questiona a abordagem mais usada nas neurociências, de que o cérebro funcionaria como um computador. [Imagem: ANNABELL Project/Un. Sassari]
 


 Modelo cognitivo
Um modelo cognitivo, composto por dois milhões de neurônios artificiais, simulados em software, mostrou-se capaz de aprender a se comunicar usando a linguagem humana a partir de um estado de "mente em branco", somente através da comunicação com um interlocutor humano.
A pesquisa lança novas luzes sobre os processos neurais que fundamentam não apenas o desenvolvimento da linguagem, mas todo o processo de funcionamento da mente humana, além de questionar os modelos mais usados pelas neurociências.

O modelo, chamado ANNABELL (sigla em inglês para Rede Neural Artificial com Comportamento Adaptativo Usado para Aprendizagem de Línguas), foi desenvolvido por um grupo de pesquisadores das universidades de Sassari (Itália) e Plymouth (Reino Unido).


Analogia cérebro-computador
As neurociências já aprenderam um bocado sobre os neurônios e suas interconexões - as sinapses. Mas um conhecimento detalhado de um neurônio individual e de quais são as funções das várias áreas do cérebro em que bilhões deles ficam ativos ao mesmo tempo não são suficientes para dar pistas sobre como o cérebro executa suas funções cognitivas.

Uma tendência na comunidade científica tem sido pensar que o cérebro funciona de forma semelhante a um computador, já que os computadores também funcionam através de sinais elétricos. De fato, muitos pesquisadores têm proposto modelos baseados na analogia "cérebro-funciona-como-um-computador" desde o final dos anos 1960.

Entretanto, além das diferenças estruturais entre neurônios e transistores, existem diferenças profundas entre o cérebro e um computador, especialmente nos mecanismos de aprendizagem e de processamento de informação. Computadores funcionam através de programas - instruções passo a passo - desenvolvidos por programadores humanos, e não há nenhuma evidência da existência de tais programas em nosso cérebro.

Hoje, muitos pesquisadores já aceitam que o nosso cérebro é capaz de desenvolver habilidades cognitivas elevadas simplesmente através da interação com o meio ambiente, a partir de muito pouco conhecimento inato - o que equivale dizer, naquela analogia com o computador, que o cérebro não tem programas.

Plasticidade e comutação sinápticas
O modelo ANNABELL parece confirmar essa abordagem, funcionando sem qualquer conhecimento pré-codificado sobre a linguagem: ele aprende a conversar apenas através da comunicação com um interlocutor humano, graças a dois mecanismos fundamentais, que também estão presentes no cérebro biológico: a plasticidade sináptica e a comutação sináptica.

A plasticidade sináptica é a capacidade das conexões entre dois neurônios para aumentar sua eficiência quando os dois neurônios são frequentemente disparados simultaneamente, ou quase simultaneamente.

O mecanismo de computação sináptica, ou comutação neural, é baseado nas propriedades de determinados neurônios (chamados neurônios biestáveis) para se comportarem como interruptores que podem ser ligados ou desligados por um sinal de controle vindo de outros neurônios. Quando ligados, os neurônios biestáveis transmitem o sinal de uma parte do cérebro para outra, caso contrário bloqueiam o sinal - isto sim, é muito parecido com um transístor eletrônico.

Programa aprende a falar
Simulando esses dois mecanismos nos neurônios artificiais modelados em software, o programa se mostrou capaz de aprender a falar e se comunicar com um interlocutor humano.
Ele foi validado usando um banco de dados de cerca de 1.500 sentenças de entrada, selecionadas com base na literatura sobre o desenvolvimento da capacidade de falar dos seres humanos.

O programa respondeu elaborando cerca de 500 novas frases, que contêm substantivos, verbos, adjetivos, pronomes e outras classes gramaticais, demonstrando a capacidade de se expressar por meio de uma linguagem humana que não lhe foi ensinada previamente.

Com modelos mais próximos da realidade, a expectativa é que sistemas de inteligência artificial, usados em programas de computador e em robôs, tornem-se capazes de aprender de forma mais parecida com a humana, sem depender de programas que especifiquem cada passo desses raciocínios artificiais.



Bibliografia:

A Cognitive Neural Architecture Able to Learn and Communicate through Natural Language
Bruno Golosio, Angelo Cangelosi, Olesya Gamotina, Giovanni Luca Masala
PLoS ONE
Vol.: 10 (11): e0140866
DOI: 10.1371/journal.pone.0140866

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Pesquisadores descobrem ligação inédita entre o cérebro e o sistema imunológico

Cérebro
Descoberta pode ampliar tratamentos existentes para doenças relacionadas ao sistema imunológico, como Alzheimer e esclerose
 
AFP
Pesquisadores da Universidade da Virginia, nos Estados Unidos, fizeram uma descoberta inédita, publicada na edição desta semana da revista Nature: pela primeira vez, cientistas perceberam que o cérebro é diretamente conectado ao sistema imunológico, por meio de veias até agora desconhecidas.

A descoberta aconteceu durante um estudo com ratos. O cientista Antoine Louveau desenvolvia um método para cortar as meninges (as membranas que cobrem o cérebro) do animal em um único pedaço, de forma a facilitar o estudo do tecido. 

Porém, durante o processo, ele percebeu no pedaço alguns padrões indicando que as células imunológicas haviam atingido as meninges por meio de veias. Depois de testes, Louveau descobriu que essas veias estavam ligadas no sistema linfático, que é parte do sistema imunológico.

"A primeira vez que esses caras me mostraram o resultado da pesquisa, eu disse apenas uma frase: 'Eles terão que mudar os livros de estudo'", disse Kevin Lee, diretor do departamento de neurociência da universidade da Virginia. 

Segundo Lee, o estudo "irá mudar fundamentalmente a forma como as pessoas enxergam a relação do sistema nervoso central com o sistema imunológico".

A descoberta dessas novas estruturas pode ter consequências nas pesquisas de doenças com componentes imunológicos, desde o Alzheimer até a esclerose múltipla. O estudo também pode ampliar os tratamentos existentes para essas doenças.

"Eu não acreditava que ainda havia estruturas no corpo humano que ainda não eram conhecidas. Eu achava que o corpo era todo mapeado", diz Jonathan Kipnis, um dos autores do estudo. "Acreditava que essas descobertas acabaram em algum momento do século passado. Mas,, aparentemente, elas não terminaram."

Fonte: Nature

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Coluna do dia: Tempo, Cérebro, Tecnologias







Uma cena: “Mãe entra por dentro da escola a procura de seu filho. Ninguém sabe dele, ninguém o viu. Ela está preocupada. Ele nunca fez isso. Enquanto a acalmam, alguns professores tentam conversar com colegas da turma dele para encontrar pistas. Ninguém o viu naquele dia. Mãe chora muito. Professores tensos. De repente um aluno lembra: o celular do garoto tem GPS. Depois de muitas tentativas, atravessam a rua. Lívio estava com dedos megadoloridos e muito suado. Depois que saíra de casa, o ar condicionado da lanhouse tinha estourado e o jogo estava quase no fim”.

Vício. Estamos na era do vício digital. Sujeitos em formação encontraram no ambiente virtual um mundo cheio de possibilidades de SER e ESTAR. De novo os jogos são o up desse momento. São cérebros em formação em busca do prazer cotidiano mesmo com a estatização do corpo e o frenesi do córtex virtual. 

Na internet, há provocações intensas dos sentidos e às múltiplas conexões neuronais. E dependendo do tempo, ritmo e repetição, as determinações genéticas podem ser influenciadas ou engatilhadas. E ai as dimensões sociais e psicológicas, principalmente, sofrem determinadas disfunções. É preciso ter cuidado. Convivemos com tecnologias desde tempos imemoriais, mas atualmente estas tecnologias inseriram a característica da velocidade em todas as dimensões humanas. 

Comportamentos, posturas, atitudes inauguram outras configurações na relação do sujeito com todos ou com ele mesmo. A primazia do prazer em SER e ESTAR em ambiente virtual reafirma, por exemplo, nossa capacidade de nos tornarmos viciados / de cair na rotina / de estabelecer zonas de conforto. Com isso torna-se frágil o argumento de que as novas tecnologias (computador, internet e suas ferramentas ou aplicativos) tornaram a geração aprendente, na escola desde a década de 80, insípida, superficial, sem foco ou atenção.

Devemos lembrar que tudo depende. Há sim uma fugacidade nas formas com que os cérebros conseguem assimilação as informações porque esta nossa grande tecnologia natural tem tido mais elementos para descartar do que para ‘trabalhar’ internamente. 

O que aconteceu com nosso personagem Lívio? Ele é reflexo do montante de imersões, em ambientes virtuais, em busca do lúdico, do divertimento, e este muito relacionado ao seu interesse, preferência e desejo. Somos seres predispostos ao encontro e permanência com o prazer sempre. Logo, ao lado de uma escola, uma lan house cheia de novidades relacionadas aos artefatos tecnológicos do século XX e XXI é o gatilho certo para este cérebro ávido de aprendizagens significativas, simplesmente ser atraído.

Prazer é resultado de melhor funcionamento de nosso sistema de recompensa. Somos humanos em busca de doses dopaminérgicas de autoestima, amor, solidariedade e, principalmente realização de nossos interesses e desejos. 

Lívio gosta da escola, mas o outro mundo ou outros mundos são mais animados, criativos, alegres e gestam curiosidade e atenção constante em seus sentidos, principalmente o córtex visual. O processo de ‘mudar o caminho’, se desvirtuar de ‘algumas responsabilidades’ é lógico, afinal o que ele está fazendo de mal? 

O choque de gerações sempre aconteceu. A mãe jamais entenderá a mudança de comportamento e de caminho. Ela já carrega em si experiências em que reconhece, NO FUTURO, consequências ruins à continuidade desses atos. Normal perfeito. Mas e o Lívio? Em que patamar fica o desejo do Lívio? Crianças não podem e nem devem ser desrespeitadas em suas emoções, movimentos e formas de aprender. Nem desrespeitadas, nem ignoradas. Suas ações são reações às informações que recebem em todos os ambientes em que interagem, então elas se testam, testam, correm riscos, experimentam com poucos medos. 

A mãe precisará de tempo para entender, mas a escola precisa revê-se rapidamente: não importa como o professor ensina, importa como seu aluno aprende. E este princípio se relaciona com atendimento das expectativas dos alunos ao entrarem na escola. É necessário tentar entender esta plasticidade cerebral, seus interesses e formas de aprender. Por que Lívio saiu do seu caminho e entrou na lanhouse? Esta é a pergunta-base. 

Particularmente ele foi em busca do seu prazer. Em se sabendo esta resposta, outra pergunta se instaura: se ele está na lanhouse, o que ele acessa mais? Jogos, vídeos, sites de relacionamento ou de bate-papo? Esta observação (e possível anamnese) pode favorecer o professor, por exemplo, a criar e desenvolver práticas de ensino mais focalizadas, pontuais e significativas. 

Leitores, tudo é bom e tudo depende, sabe por que? Porque em tudo é preciso limites. Cérebros em formação tem sua circuitaria neuronal tensionada se carregada com excesso de informações ou de realizações, ou, ao contrário, se ganharem liberdade demais para SER e AGIR. Conexões neuronais de qualidade se constroem respeitando e dando limites à chegada das novidades, à realização dos desejos e à performance relacional no dia a dia. O cérebro segue aprendendo porque aprender ocorre no cérebro mesmo. 

Quanto tempo Lívio passa na Internet ou em determinado site? Isso é importante esclarecer. Se ele tem muita liberdade ‘internética’ em casa, a decisão de ir à lan house é natural. Já se ele tem proibições ‘internéticas’ radicais em casa, de novo, a lan house é quase shangrilá e, de novo, um lugar de ida e permanência natural. E ai assim, há a perda de certas habilidades.

Sem tempo offline, o cérebro não reestrutura tudo o que assimila. Sem tempo offline real e duradouro, a questão social entra em desequilíbrio e instaura-se o ‘sem sentido’. Lívio jogava. Lívio estravazava suas emoções. Lívia desanuviava a mente. Lívio perdeu a hora. A composição do seu mundo real, na visão do outro (mãe e professores) estava deficiente. Mas ele era livre.

No mundo virtual, ele era o mundo; ele era o controlador de tudo, menos do tempo. Em metáfora, podemos dizer que, ali, o que somos (genética) era transformado por quem somos quase sem controle: experiência relacionada com o desejo e a necessidade de. 

Nós todos nos esquecemos do tempo quanto o tempo é de prazer. E pior, ficamos egoístas: o tempo de prazer é um tempo de posse. Laços ou relacionamentos virtuais ganham importância em detrimento dos laços e relacionamentos em ambiente real. Há mudança cerebral. Então antes de condenar às tecnologias ao limbo dos maus agouros da nossa contemporaneidade, devemos pensar no tempo: tempo de acesso, imersão, interação em ambientes virtuais.

Profa. Claudia Nunes