domingo, 14 de janeiro de 2018

Pesquisadores identificam padrões de gênero em casos recorrentes de autismo entre irmãos



Pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, divulgaram um estudo em que identifica padrões de gênero em casos recorrentes de transtornos do espectro autista (TEA) entre irmãos.

Embora as razões ainda não sejam conhecidas, o estudo reforçou a visão de que se um casal tem um filho ou uma filha com autismo, é maior a chance da segunda criança também o desenvolver, e que meninos são muito mais suscetíveis ao autismo que meninas.

A pesquisa consiste no cálculo dos riscos cruzados em que se verifica se o gênero do primogênito diagnosticado com autismo de alguma forma se traduz em uma maior ou menor chance de que seu irmão ou irmã também tenha o transtorno. Para isso, os pesquisadores analisaram dados de mais de oito anos de pedidos de reembolsos feitos por clientes de uma grande empresa americana de seguro de saúde.

Ao todo, foram identificadas quase 1,6 milhão de pares de irmãos nos dados da empresa, ou cerca de 3,2 milhões de crianças. Destas crianças, aproximadamente 39,5 mil em 37,5 mil foram diagnosticadas com autismo – o equivalente a 1,25% do total –, sendo identificada uma razão de 4,10 meninos com o distúrbio para cada menina.

Já em relação à recorrência entre irmãos, os pesquisadores tiveram como base 21 mil famílias com dois filhos em que a criança mais velha foi diagnosticada com TEA. Segundo os cálculos, o maior risco está em pares menina-menino, com 16,7% do filho mais novo ser autista se sua irmã mais velha também for. Em pares menino-menino o risco diminui para 12,9%. Já no caso menina-menina está em 7,6% e menino-menina é de 4,2%.

Ainda que não tenham encontrado uma razão que explique essa incidência, os pesquisadores alertaram que, apesar dos riscos, a ocorrência de autismo é relativamente rara.  “Mesmo no grupo de maior risco, meninos com irmã mais velha autista, as chances são de cinco para uma de que a criança não seja afetada”, explicou Nathan Palmer, instrutor de informática biomédica da Escola de Medicina de Harvard e principal autor do estudo.


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

'O tempo das crianças é outro', diz antropóloga Adriana Friedmann

Olhar o mundo a partir dos olhos das crianças, de suas descobertas, perspectivas e sentimentos: tarefa tão desafiadora para o adulto, quanto necessária ao propósito de educar uma criança. Escutar a criança, nesse sentido- coloca-se como um pilar nesse processo.
"Essa escuta da qual falamos não é um interrogatório, não é encher a criança de perguntas", coloca Adriana Friedmann, pesquisadora, autora, consultora nas temáticas da infância, e realizadora do Mapa da Infância Brasileira, sua principal atividade dos últimos anos, em entrevista ao Catraquinha.
Afinal, que escuta é essa? Qual é a sua importância? Como ela pode se dar nas relações entre adultos e crianças? A seguir, confira um pouco das reflexões da especialista sobre essa temática e outras, como protagonismo, educação, brincadeira, tecnologia e sentimentos na infância:
Escutar a criança
"Afinal, quem escuta as crianças? Essa escuta da qual falamos não é um interrogatório, não é encher a criança de perguntas. Quando você faz uma pergunta para uma criança, ela é tão esperta que vai te responder aquilo que você quer ouvir, não necessariamente aquilo que corresponde à verdade dela.
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"O tempo inteiro a criança está descobrindo o mundo e se expressando, se colocando"
Para mim, a ideia da escuta não é escutar apenas com os ouvidos, mas também você poder entender o que a criança está expressando e colocando no mundo através das suas atividades de criança,  o brincar, as artes, o movimento, o corpo, a música, a escrita, a palavra. O tempo inteiro a criança está descobrindo o mundo e se expressando, se colocando.
Mas o que está por trás disso tudo? Em primeiro lugar, dar espaço para que a criança respire, seja mais autônoma, tenha tempo livre para ser criança. Em segundo lugar, poder entender quem é essa criança e podermos entender, enquanto pais, educadores e gestores, podermos repensar o que estamos propondo para elas.
É nessas brechas que aparecem as mensagens, pérolas, a partir das quais você vai entender melhor o que essa criança tem interesse, dificuldade, medo, o que ela gosta, quais são os desejos e fantasias. Muitas coisas ela reproduz quando  brinca, desenha e se movimenta. Ela reproduz como vê o mundo, coisas que vive em casa, medos e frustrações".
A criança protagonista
"A criança é protagonista o tempo inteiro. O temHá escolas interessantíssimas, que dão espaço para esse protagonismo, que colocam a criança nesse espaço de protagonista de verdade, ouvindo de verdade. O protagonismo acontece o tempo inteiro. Está acontecendo no recreio, quando você dá uma atividade livre para criança, está acontecendo quando o professor vira as costas e as crianças já estão ali, com sinais e códigos entre elas".
O adulto, a brincadeira e a criança
"Há uma ilusão de que poderemos controlar um filho o tempo todo. Há uma pressão tamanha na vida da criança que inconscientemente ela percebe. E não há espaço para respirar, e isso é ruim para seu desenvolvimento. Ela tem que ter autonomia, seu espaço de controle.
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"Há uma ilusão de que poderemos controlar um filho o tempo todo. Há uma pressão tamanha na vida da criança que inconscientemente ela percebe."

Há uma pressão, um direcionamento o tempo todo, e se acha ainda, apesar de tantos estudos, que o tempo livre de brincar, da criança fazer o que bem tem vontade, é perda de tempo. Na verdade, é um grande ganho para o desenvolvimento da criança, para a sua descoberta e compreensão do mundo.
Hoje temos um adulto muito mais vigiando do que propiciando situações de brincadeira livre
Brincar junto também é um elo de comunicação com a criança. É interessante brincar junto em alguns momentos, mas não ficar querendo ensinar à criança como se faz".
O tempo da infância
"As crianças brincam de faz de conta: imitam ou ressignificam a vida real. Você pode propiciar o tempo, o espaço e objetos. Quando você deixa a criança, ela constrói uma narrativa na brincadeira. A gente, por conta do tempo, acaba interrompendo essas narrativas da brincadeira. Eu sempre falo para os professores que, de uma forma inconsciente, a gente acaba podando violentando processos que a gente não acompanha. A brincadeira acabou por que o relógio diz, mas o tempo das crianças é outro"
Emoção e sentimentos
"Acho que nossa atitude de controle, de querer ensinar o tempo todo, também tem a ver com as doenças que as crianças tem tido, físicas e psíquicas, como hiperatividade. A criança que tem muita energia, agressiva, que não para um minuto, muitas vezes é medicada.
Por que será que essa criança está a mil por hora? Muitas vezes ela está pedindo socorro. Ela está agressiva por que não sabe lidar com suas emoções de outro jeito.
Em vez de encaixotá-la e medicá-la, já colocar uma tarja dizendo que ela é assim ou assado’, crie situações em que ela possa colocar energia para fora. Não é preciso ser psicólogo para isso. É claro que muitas vezes as crianças precisam ser encaminhadas para um especialista, mas esse não é o primeiro recurso".
Criança, publicidade e consumo
"É difícil falar não, mas por trás dessa fala e desse desejo [da criança, que pede coisas] há um 'presta atenção em mim'. Se a criança fica chacoalhando o adulto e pedindo algo, é porque quer o adulto com ela. O brinquedo é muito mais uma desculpa. Mas, claro, também há uma influência subliminar da propaganda nesse gesto de pedir".
Telas e desenvolvimento infantil
"Até um ano de vida, a criança vai descobrir o mundo através dos sentidos. É uma fase que precisamos oferecer espaços de experimentação: para a criança levar coisas à boca, cheirar, tocar, pisar, cair e levantar.
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"A criança fica hipnotizada pela tela, mas o corpo não se mexe, e cria uma grande ansiedade quando o adulto chega e diz que acabou"

Estamos vendo os bebês sentados nos carrinhos sempre com uma tela na frente, e com pouco contato com a natureza. E isso é uma coisa nossa, de adultos, de sociedade. A criança fica hipnotizada pela tela, mas o corpo não se mexe, e cria uma grande ansiedade quando o adulto chega e diz que acabou.
Nos primeiros anos de vida essa exposição é pouco indicada porque a criança ainda não tem maturidade cognitiva. Com as telas, ela está numa concentração mental, e o corpo está parado. Sempre coloco assim: telas para os bebês, nem pensar".
A cultura, as origens e as singularidades de cada criança
"A gente acha que conhece as crianças, mas a verdade é que a gente não conhece. De repente, você está ali com 2 ou 3 filhos, criados na mesma família, e cada um é um mundo. Não só a criança já tem um repertório cultural, familiar, mas tem um repertório próprio. Cada criança tem um jeito único, uma essência única. Mas é também quando falamos de potência: cada criança tem uma potência única que a faz única. 
Você vê muito as escolas e os educadores buscando modelos lá fora. Eu digo que os modelos podem ser inspiradores, mas temos a nossa cultura. Não podemos deixar de considerar quem é essa criança, sua família, a diversidade cultural do nosso país.  Todos somos únicos, temos uma história ancestral que é unica".

Ludoeducação: pedagogia que mistura brincadeiras com aprendizado

A palavra "lúdico", tão utilizada por quem trabalha com infância e educação, vem do termo em latim "ludus", que significa brincar ou jogar. E quando a educação se apropria desse espírito, o que surge?
Você já viu falar de "ludoeducação"? Trata-se uma abordagem pedagógica que incorpora a ludicidade, ou seja, as brincadeiras, os jogos e o potencial brincante natural da criança, ao processo de ensino-aprendizagem.
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Enquanto estão brincando, as crianças apreendem códigos sociais, socializam com o igual e o diferente, aprendem a negociar suas vontades e vivenciam uma infinidade de experiências educativas.
A proposta é utilizar a brincadeira para apresentar à criança caminhos para as descobertas, a apreensão da linguagem e a resolução de problemas.
De acordo com essa perspectiva, a criança teria com o ensino uma experiência mais significativa, estimulante e, claro, divertida.
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A proposta dessa abordagem pedagógica é aproveitar a linguagem da brincadeira para oferecer às crianças a possibilidade de aprender brincando.
De acordo com informações do Centro de Referências em Educação Integral, o potencial educativo das práticas lúdicas é vasto: estimula a coordenação motora, as habilidades intelectuais, o desenvolvimento emocional, além da comunicação verbal e não-verbal do indivíduo. Por meio da brincadeira, as crianças compreendem papéis sociais, avaliam soluções, negociam, fazem estimativas, planejam, além de socializarem com seus pares.
“A ação na esfera imaginativa, numa situação imaginária, a criação de propósitos voluntários e a formação de planos de vida reais e impulsos volitivos aparecem ao longo do brinquedo, fazendo do mesmo o ponto mais elevado do desenvolvimento pré-escolar. A criança avança essencialmente através da atividade lúdica”, defende o teórico russo Lev Vygotsky, ícone do conceito de ensino como processo social.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Terapia Lego: Como crianças com autismo melhoram habilidades sociais brincando

Brincar com Lego pode ser mais do que uma maneira de prevenir o tédio; para algumas crianças, tem o poder de melhorar suas habilidades sociais e desenvolver a autoestima.
A terapia Lego ou "Legoterapia" é um programa de desenvolvimento social para crianças com transtorno do espectro do autismo ou dificuldades relacionadas à comunicação.
O filho de Debi Richmond, Adam, de 10 anos, diagnosticado com autismo, melhorou sua consciência social através de sessões com Lego.
“Ele utiliza [o brinquedo] como uma ferramenta calmante”, Richmond disse ao The Huffington Post UK. “Permitiu que Adam fosse ele mesmo e compartilhasse um interesse comum com os outros.”
adan
Adam Richmond melhorou suas habilidades de comunicação e sociais através de sessões de Lego terapia.
Inicialmente desenvolvida por Dan LeGoff, neuropsicólogo clínico nos Estados Unidos, a prática agora está disponível para terapeutas de todo o mundo.
As pesquisas sobre os benefícios da Lego terapia foram conduzidas por LeGoff e Gina Gomez de la Cuesta.
A dupla lançou seu primeiro livro em 2014, para divulgar os benefícios que a terapia poderia exercer sobre crianças com autismo.
Gomez de la Cuesta estudou a abordagem durante seu doutorado no Centro de Pesquisa de Autismo, onde teve aulas com LeGoff. Ela foi a primeira pessoa a criar grupos de terapia Lego no Reino Unido.
“Crianças com autismo têm dificuldades com a interação social, comunicação social e imaginação social”, disse Gomez de la Cuesta ao HuffPost UK.
“Por outro lado, elas podem ter habilidades visuais-espaciais muito boas, atenção aos detalhes e apreciar a resolução sistemática de problemas.”
“Você pode entender o Lego como um brinquedo previsível e bastante sistemático, que segue determinadas regras ou restrições — embora, claro, dentro dessas restrições de como os blocos se encaixam, você possa ser criativo tanto quanto queira.”
leogo terapia
Então, o que acontece durante a terapia Lego?
As crianças se inscrevem em um curso de oito semanas, que normalmente consiste em uma sessão de duas horas semanais.
As sessões começam com as crianças cumprimentando umas às outras e depois trabalhando em grupos de três para montar os modelos.
Gomez de la Cuesta explicou que as crianças recebem diferentes responsabilidades durante a sessão.
“Há uma grande ênfase nas crianças tomando decisões sobre o que será montado, qual será o papel de cada um e por quanto tempo”, acrescentou.
Um criança será o “engenheiro” que descreve as instruções, outra será o “fornecedor” que busca os blocos, e a terceira criança no grupo é a “construtora” que junta as peças.
“As crianças se revezam para desempenhar esses diferentes papéis”, explica Gomez de la Cuesta.
“Ao dividir a tarefa de construir (algo que as crianças com autismo gostam de fazer), as crianças precisam trabalhar em conjunto, se comunicar, resolver problemas comuns e praticar muitas habilidades sociais diferentes (coisas que são muito difíceis para crianças com autismo).
“O adulto treinado que lidera a atividade trabalha com as crianças para facilitar suas interações sociais. Seu trabalho é destacar os problemas sociais para as crianças quando estes surgem e treiná-las a encontrar suas próprias soluções para dificuldades sociais.”
interações sociais
Gomez de la Cuesta disse que a terapia Lego é enormemente benéfica, por ajudar as crianças a aprender como construir relacionamentos com os outros.
“Oportunidades naturais para o desenvolvimento da competência social são facilitadas pelo terapeuta”, acrescentou.
“O Lego também tem uma verdadeira moeda social com outras crianças. Por isso, as crianças podem falar com outras fora dos grupos e ganhar mais experiência em interações sociais.”
Uma das principais razões para esta terapia ser tão eficaz é que brincar com Lego é familiar para a maioria das crianças, explicou a pesquisadora.
Crianças que possam apresentar resistência em frequentar um grupo típico de habilidades sociais porque o consideram difícil e estressante podem se sentir muito mais confiantes e relaxadas indo a um grupo Lego.
“Fundamentalmente, as crianças estão aprendendo em um ambiente naturalista — ou seja, estão aprendendo à medida que brincam umas com as outras — e as dificuldades sociais que surgem no grupo são abordadas e discutidas à medida que acontecem”, Gomez de la Cuesta acrescentou.
ambiente naturalista
A pesquisadora disse que as crianças com autismo são frequentemente muito boas em montar modelos Lego, no sentido de que a terapia pode melhorar sua autoestima.
“Elas recebem um elogio genuíno por algo que fizeram, ao contrário de quando estão na escola, onde podem ter um desempenho abaixo do esperado e serem repreendidas frequentemente”, disse.
O fato de que as crianças nos grupos também estão conhecendo outras semelhantes a elas lhes dá a sensação de “identidade compartilhada”.
Isso é algo que Richmond acredita ter aumentado a confiança de seu filho Adam.
“Decidimos ir em frente com a terapia Lego devido ao fato de que Adam tem uma fascinação e interesse no Lego”, explicou.
“Queríamos ajudar com suas habilidades sociais e que ele conhecesse outras crianças no espectro, talvez fazer um amigo. Adam frequentou oito sessões de terapia em um curso todos os sábados e realmente se divertiu desde o início”, disse a mãe.
“Durante os workshops, Adam e os grupos de meninos e meninas trabalharam muito em equipe, compartilhando, se revezando e aprendendo, através de um jogo muito criativo, como se comunicar e usar habilidades sociais em um nível diferente”, acrescentou.
“Os grupos montaram cenários incríveis e conseguimos ver compaixão e compromisso pela terapia Lego todas as semanas. Frequentar esses grupos permitiu que ele fosse ele mesmo e compartilhasse um interesse comum com os outros. Ao fazer isso, ele compartilhava e se revezava apropriadamente, usando suas habilidades de comunicação e socializando em um ambiente criativo.”
criatividade
Richmond disse que o resultado de trabalhar em grupo e completar uma tarefa foi uma grande conquista para Adam, de muitas maneiras, permitindo que ele aprendesse brincando e recebesse elogios sinceros por suas habilidades de construção.
“Adam experimenta emoções positivas e negativas em diferentes níveis quando está criando e brincando normalmente, mas com uma tarefa completada de um modelo Lego, ele é capaz de focar em suas conquistas de muitas maneiras”, acrescentou Richmond.
“A terapia Lego começou a beneficiá-lo em seu dia a dia. Ele sempre está pensando em sua próxima criação e, em casa, desmonta seu kit Lego e usa a imaginação para criar outra coisa melhor.”
Nicola Brims disse que seu filho Zachary, de 14 anos, que está no espectro autista, melhorou a autoconfiança ao frequentar os grupos.
Ele entrou em um curso de terapia Lego de oito semanas, com sessões semanais de duas horas.
“À medida que as semanas iam passando, Zac ficou mais disposto a falar no grupo”, disse Brims.
“Ele começou não querendo falar muito e, depois de algumas semanas, conseguia conversar muito mais com seu grupo e de forma eficaz. Fora do grupo, foi realmente muito valioso para a família que Zac tivesse um canal social, e que parecia deixá-lo geralmente mais feliz e sentindo-se bem em relação às suas conquistas.”
“Ele tem se mostrado entusiasmado com o Lego há anos, portanto parecia ser uma oportunidade ideal para que ele desenvolvesse certa autoconfiança e habilidades sociais usando uma atividade da qual gosta muito. Se o grupo não fosse apoiado na terapia Lego, não acredito que teria conseguido convencê-lo a frequentá-lo”, disse Brims.
saúde mental
Camilla Nguyen, que coordena grupos de terapia Lego para crianças em Camden, Londres, disse que as atividades também são eficazes para melhorar a saúde mental das crianças.
Também fã do Lego, ela ficou intrigada pela ideia de como o jogo poderia ajudar crianças com autismo e acabou indo estudar no Centro de Pesquisa de Autismo, com os professores Gina Gomez de la Cuesta e Simon Baron-Cohen.
Nguyen criou seu grupo de terapia Lego como parte de um serviço de bem-estar mental e emocional para crianças chamado CHUMS. Muitas das criança participantes enfrentavam dificuldades, como mau humor e ansiedade.
“Muitas crianças que frequentavam o grupo tinham sido socialmente excluídas por serem autistas”, disse Nguyen ao HuffPost UK. “Muitas delas se sentem muito diferentes das crianças com desenvolvimento típico quando frequentam escolas regulares, porque são isoladas.”
“O grupo Lego, no entanto, permitiu que as crianças e os jovens se sentissem parte de uma comunidade com autismo e fizessem novos amigos, ao mesmo tempo praticando algo que eles realmente gostavam — montando Lego e sendo criativos.”
Nguyen disse que os pais — e as próprias crianças — muitas vezes se aproximam para discutir o impacto positivo observado.
“Um dos adolescentes que frequentou o grupo veio até mim, já no último dia da sessão em grupo, e contou que havia conseguido um emprego na Sainsbury’s [rede de supermercados no Reino Unido]”, disse.
“Era um garoto que se descrevia com baixa autoestima e muito ansioso antes da sessão Lego. Ele sentiu que frequentar o grupo proporcionou a confiança extra necessária para conquistar o mundo. Foi um momento de orgulho, não apenas para ele, mas também para mim, porque senti que causei um impacto positivo na vida de um jovem”, afirmou Nguyen.
Gomez de la Cuesta disse que também ficou impressionada com o impacto positivo que a terapia Lego pode ter sobre a saúde mental de uma criança.
“Nos meus grupos originais para meu doutorado, descobri que, para algumas crianças, a terapia Lego foi o ‘momento da lâmpada’ para o indivíduo”, disse.
“Por exemplo, um menino progrediu [ao começar] a brincar no parquinho da escola com outras crianças, enquanto anteriormente ficava dentro [da escola] com a professora na hora do recreio.”
“Outra mãe disse que o grupo Lego foi o primeiro clube ou grupo onde seu filho não sentiu nenhum estresse ao participar, o que, para ela, foi impressionante.”
clube de lego
Gomez de la Cuesta disse que, embora a pesquisa sobre a técnica terapêutica ainda seja incipiente, ela acredita que o programa tenha potencial para ajudar muitas crianças que enfrentam dificuldades no meio social.
“Há um crescente interesse em usá-la para pessoas que possuem dificuldades sociais por outras razões (por exemplo: uma lesão cerebral ou ansiedade social).”
“A pesquisa até agora foi focada em crianças com autismo de alto funcionamento. A abordagem também pode ser adaptada para crianças com baixo funcionamento ou para crianças que se comunicam mais, e alguns talentosos terapeutas de linguagem e de fala estão trabalhando nisso neste momento,” afirma Gomez de la Cuesta.
Para mais informações sobre a terapia Lego, acesse o site: www.bricks-for-autism.co.uk(em inglês).

Com carinho e com afeto, famílias encaram melhor o autismo


“Longe da árvore começa como um estudo sobre pais tentando educar crianças ‘complicadas’, e acaba como uma afirmação do que é ser humano”, disse o jornal The Guardian à época do lançamento do livro do escritor Andrew Solomon. Considerado um tratado sobre a diversidade e o amor, a obra do norte-americano conta, entre outras histórias, a de Nancy Corgi, mãe de duas pessoas autistas. Ela afirma que, embora ame os filhos profundamente, não os geraria se soubesse que funcionariam daquela forma. “Não faria de novo e acho que quem diz que faria mente.”

Na mesma expressão não romântica de amor aos filhos, Luiz Fernando Vianna conta, no livro Meu menino vadio — histórias de um garoto autista e seu pai estranho (Intrínseca), como é, para ele, criar um filho com autismo. Desde 2000, o autor chora, se culpa, sente raiva, sente satisfação, ri e se emociona. O primeiro filho dele, agora com 17 anos, é um adolescente autista. Nas páginas do sexto livro, o jornalista condena a romantização do autismo, o automatismo em, mesmo internamente, culpar os pais pelos problemas da criança e reflete sobre a incapacidade da maioria das pessoas típicas em lidar com o chamado transtorno do espectro autista.

“O cardápio de demandas inclui terapias, escolas, médicos, atividades físicas, residências adequadas etc. Quem tem dinheiro suficiente e muita sorte – pois o dinheiro nem sempre compra competência, muito menos afeto – pode montar uma estrutura que dê conta dessas exigências sem precisar recorrer a leis ou ao Estado. Mas a enorme maioria dos pais e responsáveis não pode”, observa Vianna, que pede para os pais de filhos autistas esquecerem os extremos. “Não se jogue da janela, o autismo não é uma tragédia. Mas também não finja que é uma coisa fácil.”

A agência da Organização das Nações Unidas (ONU) considera insuficiente o acesso desse grupo a serviços e apoio. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada 160 crianças no mundo são afetadas pelo autismo, o que significa que muitas mães e pais se veem diante de desafios bem semelhantes. De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (Center of Deseases Control and Prevention, CDC), órgão ligado ao governo norte-americano, há um caso de autismo para cada 110 pessoas. Abrasileirando os cálculos, estima-se que, entre os 200 milhões de habitantes do Brasil, cerca de dois milhões são autistas.

Além do estigma, muitos autistas sofrem discriminação e violações de direitos humanos. Especialistas afirmam que o diagnóstico precoce é fundamental para o tratamento e o desenvolvimento de uma pessoa autista, independentemente do grau em que ela se encontra. E mais: há quem veja na relação com os pais a mais poderosa das terapias.

Ao receber o diagnóstico de que o filho é autista, mães e pais precisam encarar que ele tem um funcionamento neurodivergente. Ao contrário do grau de desinformação que paira sobre o autismo – a luta de muitos é pelo reconhecimento dessa diversidade e não da simplista patologização – especialistas aconselham serenidade e, principalmente, observação. “Eu sempre digo: calma, respira, relaxa. Observe primeiro o que irrita aquela criança, o que a deixa confortável e se oriente a partir daí, pois todas são diferentes. Para uma, certa música é divertida, ritmo intenso dá ânimo e outras respostas positivas. Para outras é agressivo, elas se esquivam, tampam as orelhas. A primeira coisa é ter sensibilidade para observar a reação da criança ao que é proposto”, destaca Cláudia Facchin, psicóloga infantil e neuropsicóloga. Só então, a partir dessa observação, é possível estimular a criança para que ela possa se desenvolver dentro de seus limites.

Leandro Couri/EM
Ivana de Vilhena, de 23 anos, com a mãe, Lilia. A jovem autista é apaixonada por girafas, que enfeitam todo o quarto (foto: Leandro Couri/EM)

É o caso de Ivana de Vilhena, de 23 anos. O mundo dela é povoado por girafas. Muitas girafas. A jovem autista nutre um amor especial por esses animais, que enfeitam o seu quarto e ocupam a maior parte da sua conversa. Ela adora falar sobre os bichinhos. É o assunto predileto dela. Outra paixão é desenhar e escrever. “A minha alegria em ver Ivana se desenvolvendo por meio da escrita e do desenho é gritante”, comemora a mãe, Lilia de Vilhena.


A psicóloga infantil Cláudia Facchin afirma que é essencial proporcionar estímulos diferentes do que é familiar para a criança autista, além de desenvolver atividades que fujam da sequência terapia-consultório-elevador-escola-casa. “Ir a lugares diferentes, como praias, pegar ouriços, conchinhas na areia, são estímulos táteis diferentes. O cheiro característico da praia é outro estímulo”, aconselha.

No dia a dia, a psicóloga ressalta que é bom proporcionar atividades rítmicas às crianças autistas, como instrumentos musicais para manusear – mesmo os instrumentos de brinquedo –, além de objetos para batucar. O convívio com animais também é ótimo. “Recentemente, tem sido divulgada a terapia com a utilização de cães e cavalos, o cuidado com bichos, a demonstração de afeto por um ser diferente que não o ser humano. Sem falar das atividades em água”, diz.

Marcos Vieira/EM
Além de terapias tradicionais, é importante proporcionar à pessoa autista uma gama de atividades lúdicas que vão ajudá-la a se desenvolver (foto: Marcos Vieira/EM)

E foi na água que Adriana Torres encontrou o melhor ambiente para o filho Leon, de 5 anos. “É onde ele relaxa e consegue ficar tranquilo porque tira a barulheira, o caos do mundo. A água é um elemento pacificador para o autista”, avalia a comunicóloga. “O Leon é outra criança dentro d'água e ela torna o mundo dele um lugar mais confortável”, diz. Além da natação, Leon tira proveito da casa que Adriana e o marido, Ezio, encontraram para crescer com o filho. “A casa se tornou um parque de símbolos para ele. Aqui temos grama, quintal, pomar, balanço, rede e tudo isso o ajuda a relaxar.”

Para Adriana, a grande preocupação dos pais é sobre a autosuficiência dos filhos e, ao ver que eles não conseguem se virar por conta própria, muitos se desesperam e não conseguem enxergar nenhum aspecto positivo nessa relação. Além disso, ela observa que a independência precisa ser repensada para pessoas autistas não oralizadas – aquelas que não conseguem se comunicar pela fala. “No caso de não verbais, a maioria precisa de um suporte maior. Em vez de muitos trabalharem a comunicação alternativa, insistem na fala como se fosse a única forma de comunicação. Isso faz com que se perca um período importante, por exemplo, para ser trabalhada a linguagem de sinais, que também pode ser usada por autistas, e tantos outros recursos no lugar de 'normalizar' aquele filho. Quanto melhor é a comunicação, melhor é nosso dia a dia.” Ela chama a atenção ainda para a crueldade da normalização: “Qualquer terapia é para ajudar, dar qualidade de vida e não para tornar a pessoa menos autista”.

ATENÇÃO ESPECIAL


 A diversidade de estímulos, a longo prazo e pensada para a demanda de cada criança, torna o caminho dela e dos pais menos tortuoso. “Se aos 3 anos a diferença entre uma criança típica e não típica é pequena, aos 8 será gritante. Com estímulos dos pais, a criança fica esperta, seu vocabulário aumenta, enquanto aquela que não recebeu atenção especial tem vocabulário restrito e uma gama de habilidades menor. Em geral, ela só vai se divertir sozinha, vidrada em aparelhos eletrônicos, não vai saber compartilhar, conviver com outras crianças, o que prejudica o seu futuro”, aponta Cláudia.

“A criação ideal deve ajudar a decodificar o mundo até que a pessoa autista tenha condições de ser independente, deve dar suporte para ela fazer as mesmas coisas que pessoas neurotípicas. Em algum ponto nós vamos conseguir crescer e fazer as coisas sozinhos. Só temos um jeito diferente de processar informações”, afirma o jovem autista Victor Mendonça, de 20 anos, lembrando que cada pessoa autista não tem apenas déficits, mas também capacidades e todos os aspectos precisam de passar por aceitação. Adriana concorda. “Parece coisa de autoajuda, mas a aceitação é o primeiro passo. É preciso olhar para o filho, aceitá-lo, achá-lo lindo. E eu percebo a não aceitação representada na busca pela cura do autismo. Eu não uso o termo 'tratamento', porque autismo não se trata. Eu apenas utilizo ferramentas para dar suporte nas dificuldades que ele tem.”

* Estagiária sob a supervisão 
da editora Teresa Caram


Vários pontos de vista

Outro olhar – Reflexões de um autista
• Victor Mendonça
•Manduruvá 
Edições Especiais
•68 páginas

Danielle, Asperger
•  Victor Mendonça
• Manduruvá 
Edições Especiais
• 39 páginas

•Meu menino vadio – Histórias de um garoto autista e seu pai estranho
•Luiz Fernando Vianna
•Editora Intrínseca
• 208 páginas, 
• R$ 44,90


Despertar sentidos e habilidades

“Pais de filhos autistas bem pequenininhos já vêm com essa dúvida, que é sobre sexualidade e relacionamentos”, diz Victor Mendonça, de 20 anos, que divide com a mãe, Sueli Silva, de 53, a tela de reprodução de vídeos no YouTube. Ela gargalha: “Pensa bem!”. A dupla composta por mãe e filho está por trás do canal Mundo Asperger e escolheu a plataforma de distribuição de vídeos como uma das formas de discutir o autismo, vivido por ambos – ele diagnosticado aos 11 anos e ela há sete meses – e classificado por eles como fascinante.

Victor ainda não tinha conhecimento do transtorno quando, aos 13, perguntou para a mãe. “Ele pesquisou na internet e foi libertador. A partir daquele momento ele se conhecia, pois até então não conseguia se relacionar com os colegas e achava que a falha era dele. Meu filho viu que era diferente e passou a querer entender a si mesmo e como poderia se relacionar com outras pessoas”, conta Selma. Por volta dos 14 anos, o estudante de jornalismo informou à mãe a vontade de abandonar a psicóloga com quem se consultava. O motivo? Ele não queria ser 'normalizado' e a decisão foi tomada assim que a profissional sugeriu que, para conviver com outros meninos da mesma idade, ele passasse a entender de futebol. “Mas eu detesto, me recuso a estudar algo que não é minha praia para ser aceito”, contestou no início da adolescência.

De lá para cá, Selma e o marido investiram no convívio com o filho e nos conhecimentos artísticos como a base de seu desenvolvimento. “Eu não brincava como as outras crianças, com joguinhos ou carrinhos. Fazíamos coisas voltadas para o intelecto. Assistíamos a muitos filmes juntos, comentávamos sobre eles, líamos bastante uns para os outros. Desde cedo gostava de comentar, analisar filmes e personagens. Tenho muita memória das discussões e isso me ajudou a entender como as outras pessoas funcionavam”, relembra Victor. “Filmes sempre vêm com reflexões que me ajudam a entender mais o outro, os traumas, as dificuldades, as questões sociais. Foi e é um exercício divertido”, afirma.

PROCESSO DE SOCIALIZAÇÃO 

O incentivo e apoio dos pais é um dos principais fatores estimulantes de vários processos positivos para pessoas autistas, como a socialização. O cérebro da criança em desenvolvimento é como uma esponja e, segundo especialistas, à medida que amadurece, o órgão desperta para aquisição de habilidades e por isso os estímulos são tão importantes. “Sem estimulação, a criança autista perde em termos de aprendizagem e flexibilidade pois passar muito tempo em casa, por exemplo, faz o ambiente previsível, sem novidades ou conflitos, o que torna a criança mais discrepante em relação àquelas típicas da mesma idade”, explica Cláudia Facchin, psicóloga infantil e neuropsicóloga, cujo trabalho está voltado prioritariamente para os transtornos do espectro do autismo.
Ramon Lisboa/EM
Kenia Zulato, de 42 anos, aposta na paciência e na dedicação para estimular o desenvolvimento do filho Isaque, de 13 (foto: Ramon Lisboa/EM)

É o que tenta fazer Kenia Zulato na criação do filho Isaque, de 13 anos. “Percebi que os pais acabam sendo os maiores terapeutas dos filhos e a chave é a paciência para estimular seu desenvolvimento”, revela. “Se ele não quer passear, posso motivá-lo a ir até o portão, por exemplo. Fazemos combinados e parcerias”, conta Kenia, lembrando que a rotina é outro facilitador para o cotidiano de pessoas com autismo. “Tudo é na disciplina, tem que ter horário para tudo e Isaque segue. Fizemos uma tabela de atividades, como descanso, escola, exercícios. É só perguntar que horas são e ele sabe o que fazer.”

Para a mãe de Isaque, a relação entre pais e crianças autistas deve partir da premissa de que pais são aqueles que tiram os obstáculos para que os filhos passem. “Criar um filho autista é desafiante porque, muitas vezes, queremos fazer comparações com filhos dos outros, mas ninguém gosta de ser comparado e no caso do autismo isso jamais trará evolução. De acordo com as atividades, alarga o mundo fechado que o ele tem. A boa vontade e o desejo fazem e sempre farão a diferença”, conclui.

AJUDA PROFISSIONAL

O alerta é para o desempenho de mães e pais ao tentar fazer com que o trabalho da terapia continue sem o intermédio dos profissionais. “Eles (os pais) têm que se identificar como parte das terapias, mas pais precisam ser pais, no sentido de oferecer alternativas, como permitir ou não permitir certas coisas. Para que o desenvolvimento ocorra de forma mais eficaz e rápida, pais precisam ser orientados tecnicamente para que lidem tecnicamente com as crianças”, afirma Walter Camargos Júnior, psiquiatra da infância e adolescência. E exemplifica o limite entre o papel de familiar e profissional da saúde e a necessidade de reflexão sobre eles: “Fazer para casa com a criança não é ser pedagogo dela”.

Para ajudar quem lida diretamente com pessoas autistas, a Associação de apoio à deficiência Nossa Senhora das Graças (Agraça) implementou o projeto Vida e Graça, um grupo de autoajuda com intuito de nivelar o tratamento de quem está por perto de uma pessoa autista com o que é trabalhado na associação. “O encontro é semanal e ajuda as famílias e pessoas próximas a estarem em sintonia com as atividades que desempenhamos aqui. Se em casa a pessoa autista é tratada como um bebezão não haverá desenvolvimento. Então, criamos esse alinhamento de forma a prepará-las para passar por esses bloqueios”, conta Maristela Mayer Ferreira, presidente da Agraça.


* Estagiária sob a supervisão da editora Teresa Caram


FONTE: Jornal UAI