quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Conheça escolas de Londrina que fogem do tradicional e apostam em propostas diferenciadas de ensino


Gisele Rech, Especial Para O JL
Fonte: Jornal de Londrina

Na Apoena, atividades que valorizam os sentidos
 (Crédito: Divulgação)
Na Apoena, atividades que valorizam os sentidos (Crédito: Divulgação)



O estudante Gustavo Gorla transita com desenvoltura entre os conteúdos ministrados no ensino médio. Hoje, no terceiro ano, dá conta da preparação para o vestibular, que vai prestar para Música. A disciplina, a organização e o afinco com o qual conduz as tarefas, segundo ele próprio, é reflexo direto da base que teve em uma escola que está na lista daquelas que apostam em propostas pedagógicas que fogem ao padrão tradicional.

Ele diz que ter estudado no Instituto de Educação Infantil e Juvenil (IEIJ) o ajudou a ter disciplina, valores éticos e morais consolidados, que ajudaram a formar o modo como ele vê o mundo. “Éramos bastante exigidos com tarefas diárias elaboradas pelos próprios professores, que incluíam pesquisas em artigos de revista, jornal, produção de texto. Tudo era baseado no método da experimentação do que aprendíamos”, afirma.

Piaget
A escola segue a proposta educacional de Jean Piaget, uma das referências usadas nos estudos da neurociência. De acordo como o diretor do IEIJ, Marcio Hideo Ara Bueno, o que é ensinado e o modo como isto é feito é cuidadosamente moldado em função das respostas dos alunos. “Os professores atuam com mediadores e preparam o material pedagógico em um nível de exigência condizente com o potencial de cada aluno”, explica. Além do trabalho personalizado, outra característica prezada pela escola é apostar na interdisciplinaridade. “Os conteúdos não se limitam à própria área. Por isso os professores trabalham juntos, num trabalho de complementação entre as disciplinas”, diz Bueno.

O Colégio Sesi, que oferece da pré-escola ao ensino médio, também aposta no trabalho em equipe, mas ele é concentrado de modo mais intenso nos alunos. “Todas as atividades são realizadas em grupo, que entendemos como uma forma de preparar os alunos para o dia a dia do trabalho”, explica a diretora da escola, Elizabeth Pereira Luna. A proposta visa ainda incentivar o intercâmbio de experiências, o exercício de escuta do próximo e o fortalecimento das formas de convivência, mediante rotinas comuns no mundo do trabalho. Outro diferencial, segundo Elizabeth, está no método de avaliação. “Os estudantes não sabem quando estão sendo avaliados pelo professor. A escolha se dá em função da percepção do momento propício e inclui uma avaliação coletiva e outra individual.”
Criatividade
As palavras sensibilização, educação, trabalho e atualização, que formam a sigla da Seta, sintetizam a proposta pedagógica da escola, voltada para crianças até o quinto ano do ensino fundamental. Segundo a diretora Mira Roxo, a intenção é desenvolver a autoconfiança e a iniciativa própria nos alunos. “São fatores essenciais à criatividade e para a conquista da autonomia. Para isso, é fundamental saber respeitar os “combinados”, sejam eles criados pelo grupo ou pela sociedade”.

Outra preocupação da escola é investir na curiosidade dos estudantes para que eles desenvolvam o hábito da pesquisa. No incentivo à autonomia e à criatividade de cada aluno, Mira afirma que a escola aposta na filosofia de pensadores avessos ao método tradicional de ensino. “Não nos entregamos ao formalismo, a forma em detrimento da ideia. Nossa lista de material inclui disposição, alegria, bom humor, interação e bate papo, para preservar o material mais importante da nossa linha de trabalho: o humano.”

A escola Apoena, também voltada para crianças até o ensino fundamental, é outra que aposta em um método mais libertário de educar. A diretora Gisele Favoretto define a instituição como uma escola sem muros. “Não preparamos o aluno para a vida, mas para que o aprendizado seja a própria vida.” Na prática, isto se materializa em um processo constante de experimentação e pesquisa, que inclui desafios matemáticos, trabalhos com instrumentos musicais e conversas com especialistas, conforme o tema de cada lição.

“Acreditamos que quanto maior o contato dos estudantes com elementos que despertam os sentidos, mais se desenvolve neles a capacidade de criar.” Por isso, Gisele é enfática ao afirmar que, na escola, os professores trabalham de modo intenso para despertar e potencializar as melhores qualidades dos alunos, com ênfase especialmente à criatividade. “Eles cumprem as disciplinas, passam por avaliações e fazem tarefas, mas não perdem o protagonismo.”

Boliche para entender as Leis de Newton
Em algumas escolas, como é o caso do Colégio Marista, são os professores que investem em atividades fora do convencional para reforçar o conteúdo ministrado em sala. É o caso do professor de física Eduardo Nagao, que introduziu o boliche como atividade complementar para que os alunos possam ver, na prática, como funcionam as Leis de Newton.

De acordo com o mestre, a ideia é mesclar diversão com conteúdo. “A partir do jogo eles percebem os movimentos e fazem cálculos propostos em um relatório, que deve ser entregue ao final da atividade”, diz. Devido ao conteúdo abordado, os alunos que participam da aula, que é realizada uma vez ao ano, são do primeiro ano do ensino médio. “Nos primeiros dias de aula eles já perguntam quando vai ser.” E não é à toa. Segundo Nagao, até os alunos que rendem menos em sala se empolgam com o aprendizado na pista de boliche. “O índice de acerto dos relatórios fica em mais de 90%”, comemora.





quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A perigosa indústria das doenças mentais – uma entrevista com Allen Frances


Ex-diretor da revisão do guia de referência mundial para doenças psiquiátricas, o americano denuncia a atuação da indústria farmacêutica, que influencia os elaboradores da “bíblia da psiquiatria” a criar novos distúrbios mentais — o que exigiria diferente.

“Estamos transformando os problemas diários em transtornos mentais e tratando-os com comprimidos”

Traduzido para 12 idiomas, mas ainda em busca de editora no Brasil, o livro de Allen Frances “Saving Normal” (Salvando o normal, em tradução livre) questiona o manual que é referência para psiquiatras do mundo no diagnósticos de transtornos mentais. Para Frances, dificuldades diárias ganharam nomes de distúrbios no DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais). Como resultado, uma legião de pessoas usa remédios sem necessidade, tendência que, ele diz, tem influência da indústria farmacêutica.

O DSM 5, mais recente edição da “bíblia da psiquiatria”, é cercado de polêmicas, e uma delas veio do Instituto Nacional de Saúde Mental (NHI), um dos principais órgãos americanos, que decidiu excluir de financiamentos as pesquisas que se baseiam nas categorias do guia. Especialistas como Frances — diretor da revisão da edição anterior a esta, o DSM IV — dizem que os critérios de diagnósticos são “frouxos” e podem sofrer pressões de setores interessados.

Allen Frances: “Estamos transformando os problemas diários em transtornos mentais e tratando- os com comprimidos”
Allen Frances: “Estamos transformando os problemas diários em 
transtornos mentais e tratando- os com comprimidos”


O senhor acredita num retrocesso do DSM 5 em relação do DSM IV?
Houve pouca controvérsia no DSM IV (1994) porque ele rejeitou 92 de 94 sugestões de novos diagnósticos. O DSM 5 (2013) é muito polêmico porque abriu as portas para a irresponsável abundância de diagnósticos e de venda de remédios.

Na sua opinião, novos transtornos foram incluídos sem necessidade no DSM 5? De quem é a responsabilidade?
Sim, estamos transformando os problemas diários em transtornos mentais e tratando-os com comprimidos. Parte do problema é que o sistema de diagnóstico é muito frouxo. Mas o principal problema é que a indústria farmacêutica vende doenças e tenta convencer indivíduos de que precisam de remédios. Eles gastam bilhões de dólares em publicidade enganosa para vender doenças psiquiátricas e empurrar medicamentos.

Quais seriam os exemplos desses excessos do manual?
Uma tristeza normal se tornou “transtorno depressivo maior”; um esquecimento da idade é “transtorno neurocognitivo leve”; birras usuais do temperamento infantil se tornam “transtorno disruptivo de desregulação do humor”; exagerar na comida virou “transtorno da compulsão alimentar periódica”; uma preocupação de um sintoma médico é “transtorno de sintoma somático”; e em breve todos terão “transtorno de déficit de atenção e hiperatividade” (TDAH) e tomarão estimulantes.

Quando o psiquiatra Leon Eisenberg, considerado “o pai do TDAH”, se deparou com o aumento do diagnóstico nos EUA, ele o chamou de “doença fictícia”. Qual é a sua opinião?
O TDAH ocorre em 3% das crianças, mas é diagnosticado em 11% de americanos e, ridiculamente, em 20% de adolescentes homens. O remédio pode ser bom para poucos e terrível se usado em muitos.

Quão profundo pode ser o impacto de remédios desnecessários no comportamento desses indivíduos?
Fazemos um vasto e descontrolado experimento em nossas crianças, banhando seus cérebros imaturos com produtos químicos fortes sem saber seus efeitos de longo prazo. Pais precisam se tornar consumidores informados e proteger seus filhos.

A indústria farmacêutica exerce alguma pressão sobre o grupo de trabalho responsável pela revisão do DSM?
Ela espera às margens e não faz pressão na revisão de diagnósticos. Mas tem financiamento ilimitado e os melhores cérebros publicitários dedicados a difundir a desinformação de que transtornos psiquiátricos são subdiagnosticados e fáceis de diagnosticar. E apresenta comprimidos como solução.

Temos dados científicos suficientes para embasar os diagnósticos?
Aprendemos muito sobre o funcionamento do cérebro, mas até agora isso não ajudou um único paciente. O cérebro é a coisa mais complicada que existe. A passagem da ciência básica para a prática clínica é dolorosamente lenta, e não podemos nos apressar na psiquiatria. Ainda não temos testes biológicos para definir doenças mentais, mas isso não significa que não podemos ajudar aqueles que realmente precisam.

Como balancear a crítica ao excesso de diagnóstico sem elevar o preconceito com os doentes?
Enquanto tratamos em excesso os que não precisam, vergonhosamente deixamos os doentes de verdade ao léu. Temos ferramentas para ajudá-los a ser produtivos e ter dignidade.

Quais são as consequências disto?
Os gravemente doentes terminam na rua, em prisões ou hospitais psiquiátricos inadequados. Precisamos focar nos que estão doentes e proteger os que acham que estão. Nos EUA, pessoas morrem mais por remédios prescritos do que de drogas ilícitas.

Que medidas sociedade, cientistas, autoridades e indústria farmacêutica poderiam tomar?
Apertar o sistema de diagnóstico; recapacitar médicos para os riscos, e não apenas os benefícios de remédios; eliminar a propaganda de companhias farmacêuticas. É uma batalha de Davi contra Golias, mas foi bem-sucedida contra a indústria do tabaco.

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Entrevista retirada do site Globo Digital.

Fisioterapia, nutrição e terapia ocupacional têm leque de opções


EDILAINE FELIX
Fonte: Estadão
A fisioterapeuta Fernanda
A fisioterapeuta Fernanda. ‘Meu trabalho é muito dinâmico’
As oportunidades de trabalho na área da saúde são inúmeras. Muito além da medicina e odontologia, carreiras de fisioterapeuta, nutricionista e terapeuta ocupacional se apresentam ao mercado com muitas possibilidades de atuação.
Somando cerca de 200 mil profissionais no País, os fisioterapeutas podem trabalhar em reabilitação bem como na prevenção de problemas saúde até mesmo na cura de doenças. “O profissional pode atuar em empresas, clínicas, hospitais, academias, indústrias e como autônomo”, esclarece o presidente do Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional da 3ª Região-SP (Crefito-3), Reginaldo Antolin Bonatti.
“Raros e procurados pelo mercado”, assim o conselheiro efetivo e assessor técnico-normativo e administrativo do Crefito-3, Mario Cesar Guimarães Battisti, define o terapeuta ocupacional. Segundo ele, atualmente o Brasil tem entre 14 mil e 15 mil profissionais.
Com remuneração média inicial acima de R$ 3.500, a área de atuação do terapeuta ocupacional tem aumentado. Hoje, ele pode trabalhar em segmentos educacionais, de saúde física e mental, em hospital, conselhos tutelares, Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), Centro de Atenção Psicossocial (Caps), centros de reabilitação e em outros contextos de vulnerabilidade social.
A preocupação com a saúde tem levado o nutricionista para diferentes segmentos profissionais: nutrição clínica, saúde coletiva, alimentação coletiva, docência e pesquisa, comunicação e marketing para indústria de alimentos e nutrição esportiva, são as áreas de atuação. “O nutricionista encontra condições de trabalho e oportunidades de emprego favoráveis”, destaca a vice-presidente do Conselho Regional de Nutricionistas SP-MS (CRN-3), Sonia Tucunduva Philippi.
‘É preciso ser disponível, atento e entender os casos de urgência’
“Não foi minha primeira escolha, mas no primeiro mês de curso eu já estava decidida. Nunca questionei e nunca me arrependi da minha decisão”, diz a fisioterapeuta da Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Sírio Libanês, Fernanda Murata, de 26 anos.
A jovem, que se formou em 2011 na Universidade de São Paulo (USP), conta que durante a graduação fez estágio em todas as áreas da fisioterapia (motora e respiratória) e que a partir das experiências foi entendendo o que realmente queria fazer. “A partir do terceiro ano, tinha um envolvimento maior com a área respiratória e me afirmei”, diz.
Depois de formada, Fernanda fez um programa de aprimoramento no Hospital Sírio Libanês e, em 2013, foi contratado para trabalhar na UTI. Segundo ela, o foco é na fisioterapia respiratória – pacientes com dificuldades de respiração, que estão entubados ou precisam de respirador artificial. Mas a motora também ocorre e tem função mais preventiva, para evitar fraquezas de um paciente que ficará mais tempo na UTI, além de existir também como tratamento para pacientes com problemas neurológicos.
“Meu trabalho não tem rotina, é muito dinâmico”, diz. O profissional tem de ser atento, disponível, estar apto para entender as necessidades de uma urgência e não se desesperar. Tem de ter raciocínio rápido, técnicas bem executadas, habilidade emocional para lidar com situações de doença e terminalidade e ter resiliência. Gosto muito do que faço, tomei a decisão certa.”
‘Mercado de trabalho para o nutricionista é muito amplo’
A nutricionista Denise Balchiunas, de 51 anos, comemora os 30 anos de graduação neste ano. Formada no Centro Universitário São Camilo, conta que desde que terminou a faculdade atua na área de alimentação coletiva fazendo diagnóstico nutricional.
“Atuei por muitos anos como nutricionista em restaurantes industriais e depois fui responsável pela gestão do serviço de alimentação. Concomitantemente, fui para área acadêmica, fiz mestrado em administração de empresas e de 1997 até 2013 optei pela academia: fui como coordenadora adjunta da graduação em nutrição e coordenadora em especialização em gestão.”
No dia a dia de um restaurante, Denise relata que o nutricionista é responsável pelo planejamento, pelo cálculo de cardápio para os clientes atendidos – adequar a oferta energética e de nutriente de acordo com a performance de funcionários, além da gestão e do preparo dos alimentos. “Temos uma setorização dentro da cozinha para impedir e evitar contaminação dos alimentos, somos responsáveis pela paramentação dos funcionários, controle dos exames de saúde, segurança do trabalho e da sustentabilidade.”
Segundo Denise, atualmente o mercado de trabalho para o nutricionista é muito mais amplo. “O profissional pode trabalhar também com a educação alimentar, qualidade de vida, alimentação saudável e conscientização das pessoas.” Hoje, ela apenas estuda e cursa doutorado em administração de empresas na Faculdade Getúlio Vargas (FGV).
‘Tem vaga, tem área de atuação, mas faltam profissionais’
“Conheci a carreira em um guia de profissões”, diz a terapeuta ocupacional Gabriela de Macedo, de 28 anos, que se formou em 2008 e hoje atua em uma Unidade Básica de Sáude (UBS) e em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) de álcool e drogas. Ela ressalta que, embora seja uma profissão antiga, não é muito conhecida e está em crescimento, com muitas oportunidades de trabalho e áreas de atuação.
“Quando terminei a faculdade voltei para a minha cidade (Bariri-SP) e fiz um projeto apresentando a função do terapeuta ocupacional e as possibilidades de trabalho. Entreguei na Prefeitura, em escolas, hospitais e casas de repouso.”
O primeiro trabalho da jovem foi em uma casa de repouso, auxiliando pessoas no resgate de sua autonomia, da independência e na adaptação ao ambiente. De lá para cá, ela já trabalhou no Hospital do Câncer de Jaú, na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), em hospital psiquiátrico e em núcleos de apoio à família. “Estas são as funções do terapeuta ocupacional: trabalhar com atividades do dia a dia para a inclusão social, acreditando que as pessoas são capazes, independentemente das condições que elas apresentam; inserir a pessoa no seu cotidiano e organizar sua vida, buscar o bem-estar, respeitando sempre as suas escolhas.”
Ela diz que desde a formatura não ficou desempregada. “Tem vaga, tem área de trabalho, mas faltam profissionais.” Segundo a jovem, a profissão está ganhando espaço e a remuneração é atraente.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

COLUNA DO DIA: Gamificação e a Intervenção psicopedagógica



Muito se fala na questão do ‘aprender’. Ação de se construir memórias interligadas para realização de atividades repentinas, diárias e/ou temporárias com tranquilidade. Todavia aprender tem outras nuances: é o resultado do prazer de se identificar e se integrar no mundo extragenético com equilíbrio intragenético; é saber ser feliz apesar dos estranhamentos da vida; e é exercício de relação envolvendo todas as eficiências. Então se entende que, para suportar as etapas naturais relacionadas aos processos de mudanças orgânicas, psicológicas e sociais no convívio de múltiplas situações, emoções ou pessoas, é necessário que o aprendente ‘ganhe’ alternativas, ‘tenha’ ferramentas e ‘use’ determinadas estratégias singulares e coletivas em seu cotidiano.

Neste contexto está livremente apresentada, outra vez, a concepção da ‘gamificação’[1] dos processos mentais e físicos necessários ao aprender a ser, conviver e conhecer para, por fim, AGIR (fazer/praticar) em quaisquer situações orgânica, mental e social humana. Os aprendentes precisam ir à vida articulados e flexíveis em seus movimentos de corpo e mentais, de forma a poder se sustentar nas relações em geral. E sendo assim, as palavras ‘superação’ e ‘resiliência’ serão uma constante.

            A referência à gamificação da vida, por outro lado, demonstra a possibilidade de se envolver essa ‘superações e ‘resiliência’ em processos de avaliação psicopedagógica cuja função é oferecer oportunidades de os aprendentes reconhecerem suas eficiências e ineficiências, e, por conseguinte, estimular a adoção autônoma de outros comportamentos emocionais no dia a dia e entre outros aprendentes e/ou pessoas.

A introdução da experiência gamificada é uma possibilidade de se tornar agradáveis tarefas importantes à integração aprendente no social; é uma proposta de mudança no design interventivo e aplicação de recursos psicopedagógicos ‘jogáveis’, além de estimular a identificação de determinados padrões cognitivos e emocionais ‘diferentes’ ou alterados. Enfim, é uma sugestão de análise ao fomento da aprendizagem significativa e integral do aprendente, a partir de problemas, dificuldades e/ou transtornos de aprendizagem, o que pode também favorecer as intervenções psicopedagógicas.

Sob o olhar psicopedagógico, o ‘espírito da gamificação’ se apresenta com a mesma proposta do tal ‘espírito esportivo’ popular. Ela age em diferentes vertentes inseparáveis, como cooperação, colaboração, integração e compartilhamento, porque é uma metodologia por meio do qual se aplicam mecanismos de jogos à resolução de problemas ou impasses psicossociais em outros contextos.

Não há o ‘espírito’ simples do ato de se criar jogos ‘divertidos’ ou passatempos, e nem se tem o ‘espírito de competição’. No processo de ‘gamificação, há o uso da mecânica dos jogos, no intuito de estimular e incrementar a participação do aprendentes à sala de aula, por exemplo; além de gerar maiores engajamentos e comprometimentos às potencialidades e eficiências de cada um.

Sendo assim, acredita-se que o psicopedagogo é o profissional que trabalha com readaptações cognitivas e reequilíbrios emocionais visando tranquilidades singulares e vivências coletivas mais eficientes dos aprendentes junto às diferentes maneiras de se operar atividades gamificadas.

            A         gamificação, então, torna-se uma oportunidade de associação diferenciada que proporciona controle autônomo das necessidades aprendentes e de alcance dos próprios objetivos de vida. Neste seguimento há uma preocupação em conviver com o outro respeitando todas as eficiências; e há incentivos à criação ou adaptação das experiências do aprendente relacionada à aprendizagem ou ao seu próprio processo de aprender.

De acordo com Vianna (2013), a intenção é despertar emoções positivas, explorar aptidões pessoais ou atrelar recompensas virtuais ou físicas ao cumprimento de tarefas. (p.17). Aprender então se estabelece como uma atitude emocional diante das informações ou das imersões ambientes. Logo, é importante:
ð  Entender perfis, de antemão, inerentes às motivações e às sensibilizações;
ð  Dar complexidade gradativa aos mecanismos experimentados;
ð  Reconhecer que humanos têm comportamentos diversos, logo não há formas para análise;
ð  Conhecer o contexto em que se insere o aprendente, seus anseios e limitações extrínsecos e intrínsecos, e suas automotivações.

Estes são alguns dos campos (objetivos) a que se tem que levar em consideração quando da aplicação de processos gamificados de intervenção psicopedagógicas. Além disso, para um psicopedagogo, os recursos escolhidos devem ter regras claras; metas; ações de feedbacks; e recompensas. McGonigal (2013) desenvolve características para estes itens que podem favorecer o ambiente e o olhar psicopedagógico, a saber:


Quadro resumido a partir de McGONIGAL, Jane. A realidade do jogo: por que os games nos tornam melhores e como eles podem mudar o mundo. 2013, p.29-31


Na visão psicopedagógica, o aprender com significados, desafios e entusiasmos serão muito importantes para a exposição das emoções e para a exploração psicopedagógica das mesmas. Por conseguinte, o psicopedagogo vai se inaugurar nas liberdades e inconsciências das desatenções do cérebro emocional. Não haverá perdas, não poderá haver descasos. Diante da gamificação em que haja a intenção de dirimir dificuldades de maneira interventiva psicopedagógica, tudo ganhará amplidão, complexidade e se inaugurará alívios emocionais sinceros: o aprendente falará por diferentes caminhos e com diferentes manejos emocionais, as vezes, com pouca consciência do fato. É preciso saber observar, escutar e agir.

Segundo Campos (2012), o ser humano continua aprendendo melhor quanto mais significativa for a situação de aprendizagem. Logo, continua a mesma autora, (...) a participação do psicopedagogo traz inúmeras possibilidades de enriquecimento e amplificação (...) tendo em vista que um dos fundamentos da prática psicopedagógica consiste na articulação entre objetividade e a subjetividades, as intervenções de cunho psicopedagógica enfatizam o lugar do simbólico e da atividade lúdica da aprendizagem. (CAMPOS, 2012, p.13-14), base das ações gamificadas.

Psicopedagogos são cérebros ocupados em compreender como motivar e engajar sujeitos com alguma alteração, disfunção ou dificuldade sob a ótica da aprendizagem. E não há receita pronta, de novo, repete-se aqui, pois afinal, os aprendentes “geralmente não costumam se comportar como ratos de laboratório, que se submetem sem questionamentos à realização de trabalhos em troca de nacos de queijo”. (VIANNA, 2013, p.18)

Profª Ma Claudia Nunes

Referências:
CAMPOS, Maria Celia Rabello Malta (org.). O jogo na sala de aula e o desenvolvimento de competências do aluno e do professor. (p.19-66). In. CAMPOS, Maria Célia Rabello Malta (org.). Atuação em Psicopedagogia Institucional: brincar, criar e aprender em diferentes idades. Rio de janeiro: WAK editora, 2012.
McGONIGAL, Jane. A realidade do jogo: por que os games nos tornam melhores e como eles podem mudar o mundo. Rio de Janeiro: BestSeller, 2012.
VIANNA Ysmar; VIANNA, Maurício; MEDINA, Bruno; TANAKA, Samara. Gamification, Inc.: como reinventar empresas a partir de jogos. Rio de janeiro: MJV Press, 2013. http://www.mjv.com.br. Acessado em 20/12/2013.



[1] Segundo Vianna (2013, p.13), a gamificação (do original em inglês gamification) corresponde ao uso de mecanismos de jogos orientados ao objetivo de resolver problemas práticos ou de despertar engajamento entre um público específico. (...) É cunhado pela primeira vez em 2002 por Nick Pelling, programador de computadores e pesquisador britânico, mas só ganhou popularidade oito anos depois, mais precisamente, a partir de uma apresentação de TED realizada por Jane McGonigal, famosa game designer norte-americana e autora do livro, “A realidade em jogo: Por que os games nos tornam melhores e como eles podem mudar o mundo”, considerado uma espécie de bíblia da gamificação.

domingo, 27 de setembro de 2015

Estudo lança alerta: meninas com Autismo têm maior tendência a sofrer com epilepsia do tipo refratária



Um dos maiores enigmas do Autismo está relacionado a sua maior incidência em homens do que em mulheres (chegando a proporção de 4-1). Aproximadamente 25% das pessoas com Autismo têm epilepsia, em comparação com 1% da população em geral. No novo estudo, os pesquisadores descobriram que as mulheres que têm tanto Autismo quanto epilepsia tendem a ter sintomas mais leves de Autismo, mas crises mais graves de epilepsia que os homens com esses distúrbios. A descoberta sugere que o que protege as mulheres do autismo não parecem protegê-las da epilepsia. Os resultados, publicados na revista Autism Research afirmam ainda que meninas com Autismo possuem um risco três vezes maior de ter epilepsia do tipo refratário (que responde pouco aos medicamentos).”É muito intrigante“, diz o pesquisador-chefe Karen Blackmon, professor assistente de neurologia da Universidade de Nova York.
Estudos anteriores demonstraram que a epilepsia afeta mais meninas do que meninos com Autismo. As novas descobertas servem como um alerta aos médicos que a epilepsia nessas meninas também podem ser especialmente difíceis de tratar.
“Os médicos têm que estar preparados para tentar várias medicações e ter a consciência de que muitas delas podem falhar na primeira tentativa” afirma Shafali Jeste, professora assistente de psiquiatria da Universidade da Califórnia, Los Angeles, que não está envolvida nesse estudo.
Blackmon e colegas acompanharam 125 pessoas com Autismo que procuraram tratamento para a epilepsia. Os participantes tinham idades entre 2 e 35 anos. Dos 97 meninos e homens, 24% não apresentaram resposta a duas drogas da epilepsia. Em contraste, 46% das 28 meninas e mulheres não responderam ao tratamento. Elas também tinham sintomas mais leves de Autismo do que os homens, de acordo com os questionários preenchidos pelos pais.
Os pesquisadores excluíram do estudo as pessoas com síndromes genéticas já conhecidas e ligadas à epilepsia, tais como Esclerose Tuberosa. Mas alguns participantes podem possuir variantes ligadas a ambos (Autismo e epilepsia resistente ao tratamento) tal como a duplicação da região cromossómica 15q11.13 – o que pode causar convulsões mortais.
As conclusões do estudo podem resultar das garotas e mulheres participantes possuirem um número desproporcional dessas mutações graves, diz Elliott Sherr, professor de neurologia da Universidade da Califórnia, San Francisco, que não estava envolvido com o estudo. Isso iria distorcer os resultados que sugerem que mais meninas do que meninos em geral têm epilepsia resistente ao tratamento, por exemplo.
Ainda assim, o trabalho lança um nova luz sobre observação sobreposta entre autismo e epilepsia. “Sabemos muito pouco sobre o subgrupo de indivíduos com [ambos] Autismo e epilepsia“, diz Christine Nordahl, professora assistente de psiquiatria da Universidade da Califórnia, em Davis, que não esteve envolvida no estudo. “Este estudo é um grande primeiro passo para explorar as diferenças de sexo neste subgrupo.”
Os pesquisadores também usaram ressonância magnética para explorar as possíveis bases neurológicas da susceptibilidade das meninas à convulsões intratáveis.
Eles descobriram que as mulheres que têm tanto Autismo e epilepsia são mais propensas do que os homens com ambos os transtornos a ter anormalidades leves, como displasias corticais, em que alguns neurônios na camada superior do cérebro não conseguem migrar para o local correto. Cerca de 42% das mulheres no estudo têm varreduras do cérebro incomuns, em comparação com apenas 19% dos homens. Estas anomalias são uma pista para o tratamento da epilepsia refratária em ambos os sexos.
Displasias corticais estão ligadas à epilepsia, mas algumas das outras anormalidades observadas no estudo são menores e podem não ser nocivas. Blackmon e seus colegas estão encontrando maneiras melhores para detectar displasias corticais e um plano para procurá-las através de um grande banco de dados de imagens do cérebro. A prevalência dessas anormalidades pode começar a explicar a ligação entre Autismo e epilepsia grave em meninas, diz Blackmon.
Referência:
1: Blackmon K. et al. Autism Res. Epub ahead of print (2015) PubMed

Menos neurônios, mais sono: Herculano-Houzel traz hipótese sobre o tempo de sono dos mamíferos

Cientistas já sabiam que o tempo de sono varia muito entre os mamíferos e que, quanto maior o animal, mais horas ele passa acordado. Enquanto um elefante fica 21h por dia acordado, por exemplo, um morcego faz o contrário e passa até 20h dormindo. 

Por sua vez, as girafas são praticamente insones pelos padrões humanos: dormem quatro horas por dia no máximo. Já os camundongos dormem praticamente todo o tempo. Mas o que ninguém conseguia explicar até hoje é o que exatamente determina essa diferença tão grande.

Um novo estudo da neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel, publicado no periódico científicoProceedings of the Royal Society B, propõe uma explicação surpreendente sobre o assunto: "A minha proposta é que é exatamente o aumento do número de neurônios que causa um tempo menor de sono, por meio de uma menor taxa de acúmulo de substâncias que induzem o sono", diz Suzana. A relação entre a densidade de neurônios por área e a quantidade diária de horas de sono pode ajudar a explicar como os mamíferos ganharam cérebros e corpos maiores ao longo da evolução.

Estudos detalhados sobre as funções biológicas do sono se multiplicaram nos últimos anos. O repouso noturno (ou diurno, no caso de animais de hábitos mais boêmios) é crucial, por exemplo, para a formação de memórias e para o aprendizado, mas tudo indica que o papel mais importante do sono é fazer uma faxina cerebral, recolhendo moléculas potencialmente nocivas que se acumularam durante o dia como subproduto do funcionamento dos neurônios.

Não daria para fazer isso sem passar algumas horas inconsciente e indefeso todo santo dia? Provavelmente não. Ocorre que, quando um mamífero está acordado, o fluido que banha as regiões entre uma célula e outra de seu cérebro e é responsável por carregar o "lixo" dos neurônios para longe deles só consegue alcançar uma área relativamente pequena do órgão – em geral, a parte mais superficial dele.
Isso acontece, grosso modo, porque os neurônios do cérebro estão "inchados", deixando pouco espaço para o fluido circular. Quando o sono vem, é como se o tecido cerebral relaxasse, de maneira que ele é banhado pelo fluido de forma mais homogênea, facilitando assim a faxina.
Pois bem: ao analisar dados sobre o cérebro de 24 espécies diferentes de mamíferos, desde primatas (incluindo vários macacos e o ser humano) até roedores e até girafas e elefantes, Suzana verificou que, em geral, os bichos maiores e de cérebro mais avantajado eram os que dormiam menos.

O detalhe crucial, porém, é que nos animais grandalhões e de grande cérebro, o tamanho da superfície do cérebro era relativamente menor em relação ao córtex cerebral como um todo. Além disso, os neurônios desses bichos tendiam a ser maiores também.

Esse último ponto é importante porque, com neurônios maiores, menos células desse tipo podem ser empacotadas no mesmo espaço do cérebro, o que permite uma circulação mais eficiente de fluido entre elas – realizando uma faxina mais eficiente à noite, com menos horas obrigatórias de sono.
Nessa história, primatas como nós são, até certo ponto, um caso à parte. Ao longo de sua história evolutiva, o grupo dos macacos não teve um crescimento acentuado no tamanho de seus numerosos neurônios. Resultado: eles possuem uma densidade maior em relação à superfície do cérebro, o que explica porque nós ainda precisamos dormir cerca de oito horas por dia, em média, e não as três ou quatro horas típicas de um elefante.
A matéria-prima que teria desencadeado o processo evolutivo que levou ao aumento do cérebro em várias linhagens de mamíferos poderia ter sido a própria variação natural no número de neurônios entre um indivíduo e outro, propõe Suzana.
"Eu já sei que essa variação existe espontaneamente na natureza", diz ela. "O que estou propondo é que aqueles indivíduos que espontaneamente tiverem mais neurônios terão a vantagem de dormir um pouco menos, o que aumenta sua chance de sobreviver – e de conseguir um corpo maior por terem mais tempo para comer."
A partir daí, a seleção natural teria feito o resto do serviço, criando uma espécie de círculo virtuoso no qual mais neurônios exigiam menos sono, permitindo mais tempo e recursos para a alimentação e o crescimento do corpo e do cérebro.

A hipótese da pesquisadora, se estiver correta, poderia ainda explicar um fenômeno que certamente chama a atenção de todos os pais de primeira viagem: bebês humanos nascem dormindo uma quantidade elevadíssima de horas por dia, que vai lentamente decaindo até alcançar os níveis comuns entre adultos (Isso, aliás, é válido também para filhotes de outras espécies de mamíferos).
Ora, caso o desenvolvimento do cérebro dos bebês seja, de certa maneira, uma recapitulação do que ocorreu ao longo da evolução dos mamíferos, faz sentido que, conforme o órgão vai alcançando suas dimensões adultas, ele tenha menos necessidade de uma faxina de longa duração, devido ao menor acúmulo relativo de moléculas "lixo".
(Via BBC e Folha de S.Paulo)

Brasil tem primeiro musical estrelado por crianças com autismo



A primeira vez que a musicoterapeuta Ana Carolina Steinkopf, de 24 anos, tocou um acorde para uma criança autista, ela deu as costas. Em vez de se chatear ou esquecer a reação, Ana foi buscar mais explicações sobre esse comportamento e descobriu que no Brasil ainda não havia um trabalho consolidado que unisse música com o autismo. Foi assim que ela soube que deveria cumprir este papel. Ana conta que a ideia surgiu a partir da prática clínica, onde pode ver que as crianças que faziam parte das sessões de musicoterapia tinham mais facilidade com a comunicação e o relacionamento. 


A artista montou um musical com crianças autistas de diferentes níveis, que vão dos mais baixos até os casos mais delicados. E o resultado foi recompensador. Além de ter sido um sucesso em Brasília, a montagem serviu como terapia para os pequenos. O projeto conta com 21 crianças autista e seus familiares. “A família é muito importante. Ao envolvê-los, a criança se motiva mais. Quando eles fazem algum movimento ou som, ela se sente estimulada a reproduzir a mesma ação. Isso é importante porque o autista precisa de vínculo”, comenta.


“Uma Sinfonia Diferente” é o nome do trabalho voluntário que reúne ainda a psicóloga Cinthia Vanessa, 21 estudantes de psicologia, equipes de filmagem, fotografia, uma banda com sete músicos e uma equipe de produção. “E o pagamento é a melhora da criança e o vínculo afetivo dos pais e dos irmãos”, completa Ana.