quarta-feira, 11 de março de 2015

O desfralde da criança com síndrome de Down

Por Movimento Down

Potty training

Deixar de usar a fralda é um grande passo no desenvolvimento e algo indispensável para a construção de uma vida independente. A retirada da fralda não é tarefa fácil e requer, acima de tudo, muita paciência e persistência. É uma etapa muito importante na vida de uma criança, tenha ela a síndrome de Down ou não.

O artigo a seguir auxilia pais e cuidadores com dicas para a retirada das fraldas de crianças com síndrome de Down. O conteúdo inclui um infográfico com 6 orientações para um desfralde sem traumas: utilizar recursos visuais, tirar totalmente a fralda durante o dia, levar a criança regularmente ao banheiro, ser compreensivo com escapes, elogiar sempre que a criança conseguir utilizar o banheiro, e forrar a cama com plástico ou cobertura impermeável para o desfralde noturno.

Dicas para estimular crianças com síndrome de Down a escrever

Muitas crianças com síndrome de Down têm dificuldade para escrever. A hipotonia, ligamentos mais frouxos e falta de força nas mãos contribuem para isso. Há diversas maneiras de preparar a criança para essa tarefa, e que também contribuirão para outras que a levarão à autonomia, como vestir-se sozinho, por exemplo. Veja abaixo algumas dicas, que servem tanto para a escrita em letra bastão ou cursiva, assim como para o desenho:

ANTES DE ESCREVER:
– Escrever com letras grandes na areia. Passar a mão por cima, caminhar por cima das letras.
– Desenhar e fazer linhas e círculos com esponjas e pincéis num papel grande, jornal, quadro ou cavalete.
– Colocar contas num fio – começar com contas maiores, e ir diminuindo o tamanho e a espessura do fio, conforme a criança for melhorando a habilidade.
– Colar adesivos em lugares definidos – também no começo maiores, e ir reduzindo com o tempo.
– Andar na posição carrinho de mão – com as mãos no chão e alguém segurando os pés, para desenvolver a força muscular dos ombros e braços.
– Fazer construções com Lego.
– Fazer castelos com areia molhada.

QUANDO A CRIANÇA JÁ ESTIVER COMEÇANDO A ESCREVER
– Desenhar linhas em labirintos impressos no papel.
– Escrever no ar.
– Dizer para a criança para escrever rápido e não se importar com a letra. Com o tempo e a repetição, a grafia vai melhorando.
– Tão logo possível, começar a ensinar a criança a escrever palavras, que despertam mais interesse do que simples letras.
– Permitir que a criança fique em uma posição confortável para ela, pelo menos de início. Algumas crianças procuram apoio da outra mão ou até do queixo ou da bochecha para firmar o lápis. Com o tempo ela vai encontrando seu próprio jeito.
– Usar canetas com tinta lavável pra ficar mais fácil de limpar a bagunça
– Sempre dizer para a criança escrever algo à mão livre também, não apenas exercícios e tracejado, porque é lá que queremos chegar.
– É importante elogiar o trabalho, mesmo quando ele não está muito bom.
– Tudo bem se o trabalho não ficar muito bom no começo, porque, com o tempo e a prática, as letras vão tomando uma forma mais consistente, tornando-se a escrita pessoal de quem escreve.
– Quadros brancos com pincéis atômicos são mais fáceis para escrever.


Lápis e canetas mais grossos são mais fáceis de usar. Foto: Paula Moreira Fotografia
Canetas mais grossas são mais fáceis de usar.
Foto: Paula Moreira Fotografia


– Lápis e canetas mais grossos são mais fáceis de usar.
– Usar pedaços bem pequenos de giz também é bom para desenvolver o movimento de pinça com os dedos.
– É importante o assento estar numa altura adequada em relação à mesa e que, para melhorar a estabilidade, os pés fiquem pousados no chão ou em um repouso para os pés (pode ser um banco, um pedaço de madeira ou alguns livros grossos envolvidos em papel).
– Procure bons motivos para a criança escrever, como por exemplo um cartão de aniversário, lista de supermercado, uma relação de seus brinquedos favoritos.
– A hipermobilidade, comum em crianças com síndrome de Down, é mais um fator complicador que dificulta a escrita.
– Uma carteira inclinada, daquelas de antigamente, é melhor para a escrita do que uma mesa plana.


APOIO
– Algumas crianças se beneficiam de adaptações no lápis ou que ajudem o punho ou braço a permanecerem na posição para escrever.
– Lápis triangulares são mais anatômicos .
– Enrolar um elástico de borracha, ou mesmo esparadrapo, no lápis, para que fique mais “gordinho”, pode ser favorável.
– Ajudar colocando a mão sobre a mão da criança. Fique por trás dela, para que entenda a posição correta para escrever.
– Segurar levemente a mão, cotovelo ou braço, até ela conseguir permanecer na posição sozinha.
– Dirigir o traçado corrigindo levemente a empunhadura da mão da criança.
– Dirigir oralmente o desenho ou a escrita da letra (faz um traço, um círculo, uma barriga…)
– Sentar-se ao lado dela, fazer a posição de segurar o lápis e dizer para ela fazer a mesma posição.
– Mostrar fotos de crianças empunhando o lápis corretamente.
– Interromper o desenho antes que ela comece a rabiscar muito o papel.
– Usar pincel atômico largo dá estabilidade e a criança fica feliz em conseguir tracejar mesmo sem ter força na mão.


MOVIMENTOS
Os movimentos são o mais importante para aprender a escrever – e não o resultado. Assim, uma criança não deve ser obrigada a copiar ou tracejar as letras (seguir pontinhos com o lápis). Escrever não é desenhar. Se a criança aprende o movimento para escrever, sua letra irá gradualmente desenvolvendo a fluência e legibilidade. Por isso é importante que, para cada letra, o professor comece a ajudar o aluno colocando sua mão sobre a mão dele e reduzindo gradualmente a orientação até que a criança ganhe mais confiança.


Exemplo de letra cursiva facilitada. Imagem: blog Educar para a Vida
Exemplo de letra cursiva facilitada.
Imagem: blog Educar para a Vida



FALTA DE COORDENAÇÃO
É importante lembrar que não ter coordenação adequada não impede a criança de começar a escrever.

OUTROS RECURSOS:
– Letras cortadas de revistas
– Carimbos de letras
– Letras de plástico
– Letras adesivas
– Decalque de letras (daqueles que passamos a caneta por cima e a letra aparece, ou os que são transferidos para o papel com água)
– Letras magnéticas
– Letras de massinha
– Letrinhas de macarrão de sopa de letrinhas
– Letras de gel
– Letras recortadas em lixa, que ajudam também a desenvolver a noção espacial da letra através do tato

EXEMPLOS DE EXERCÍCIOS

Exemplos de exercícios pra treinar letra cursiva. Fonte: Goodoc.net




Exemplos de exercícios para treinar letra cursiva.
Fonte: Goodoc.net 




Fonte: Leonora Samuel, Alexa Beale, Tricia Fareys, do grupo DS-UK.
Tradução e adaptação: Patricia Almeida 



O que sabemos, e o que ainda não sabemos, sobre o autismo

Por TED: Ideas worth spreading

Cute kid playing with cubes
(O conteúdo completo deste artigo está disponível apenas em inglês)

Na palestra a seguir, a médica e geneticista Wendy Chung apresenta as evidências científicas mais recentes sobre o autismo, além de perguntas que ainda não foram respondidas pela ciência. Um fator determinante que tem sido abordado mais com mais precisão pela ciência são os genes que causam autismo. De acordo com Wendy Chung, esta é uma das causas do autismo que mais permitem aos pesquisadores compreender a biologia e o funcionamento do cérebro.

Outros fatores de risco apresentados  são a idade dos genitores, as condições pelas quais a mãe passa pela gestação, e uma substância presente em determinado remédio para epilepsia. A médica ressalta, no entanto, que as vacinas comprovadamente não causam autismo. Segundo ela, o artigo científico que apresentava esta suposição foi retirado do periódico The Lancet, e seu autos perdeu a licença de exercício da profissão.

 
 

Coluna do dia: Um mundo da conectividade





A questão da conectividade não é mais novidade pra ninguém. Segundo Spyer (2007), atualmente devemos nos perguntar: a internet é um destino ou um desafio? Então para começar, vamos pensar: o cérebro foi preparado para isso? Ou melhor: fomos preparados para tantas mudanças que nós mesmos construímos? Hoje estamos todos com todos em tempo real: isso é um problema ou uma solução?

A rede tornou-se o todo (nossa realidade) e o todo está revestido de pontos em que podemos nos qualificar e nos quantificar (aprender) junto a e com os outros de acordo com os interesses, sonhos e desejos. Pensa-se em grupo. Estamos todos juntos e misturados tendo de sobreviver dia a dia. É uma sobrevivência junto às diferenças de atitude, de linguagem e de sensibilidade; e, mesmo assim, seguimos criando redes sociais bem interessantes: nada poderia ser melhor. Todavia, sempre um alerta: devemos nos conectar com moderação.

Nossa principal tecnologia, o cérebro, precisa das distrações, dos devaneios, dos tipos de relaxamento e/ou de pontuais mudanças de foco; precisa aprender a curtir, compartilhar e colaborar; precisa tanto de hábitos quanto de mudança de hábitos para se manter saudável. Uma lembrança: nada permanece em nossa memória se não for praticado; se não tiver funcionalidade; se não entrar na ‘vibe’ do uso contínuo (rotina). Entretanto, é preciso mudar ou, ao menos, estimular mudanças de maneira a que se projetem comportamentos mais ‘antenados’, criativos ou ‘safos’ no cotidiano. Sem isso, o cérebro cansa, falha e, aí, ocorrem os estranhamentos, os esquecimentos, as mudanças de comportamento e as tristezas inexplicáveis.

A velocidade das tecnologias artificiais vem sensibilizando o cérebro a plasticidades neuronais cada vez mais rápidas e menos diferentes; e são os diferentes ou as diferenças que saúdam a formação contínua da memória de longa duração e qualificam nosso poder de resiliência. Quando observamos nossos jovens, por exemplo, vemos uma geração ‘touch’ em busca de outros toques e ‘times’ que solucionem a própria vida e suas futuras decisões, com rapidez. Eles são a geração ‘tudo ao mesmo tempo agora’.

Seu desenvolvimento tem normalidade apenas no quesito faixa etária. As questões cognitivas, emocionais e físicas estão em ebulição e em convergência acelerada, alterando sua formação neurobiológica e física; e, em alguns casos, proporcionando saltos maturacionais surpreendentes, frutos da vivência de experiências emocionais e sociais que intensificam as ações do sistema límbico (emoções) e antecipam as ações do córtex pré-frontal (pensamento, raciocínio): estamos no âmbito da impulsividade e da reatividade.

O cérebro é fiel escudeiro, como afirma a Profª. Marta Relvas, e, por isso, reflete no corpo e na mente, quando necessita de novas performances ou quando é usado exageradamente. Daí, eu percebi o seguinte: o problema não é a conectividade, e sim a intensidade da conectividade. Nós perdemos a noção do tempo imersos em outra dimensão (mundo virtual). Nós oferecemos ao cérebro o prazer necessário à criação das necessidades, da euforia, da liberdade e, basicamente, de escapismo social. Nas nuvens, os jovens estão sem amarras, conectados, funcionais e se comunicando aleatoriamente e de maneira assíncrona. Para cada aplicativo descoberto e acessado, mais curiosidade, criatividade, prazer e aprendizagem. Então, se devemos pensar em um ‘problema’: estamos diante da real negação do mundo em favor do prazer de viver e agir noutro mundo em que ON e OFF são escolhas muito pessoais e simples. Poder nas mãos? Não! Poder nos dedos!

Diante da vida conectada e nas nuvens, intensifica-se o uso do sistema de recompensa (área tegmentar ventral e núcleo accubems). Há mudanças no sistema nervoso; alterações nas formas de seleção e adaptação das informações; mais dopamina e serotonina no corpo. Estes últimos, chamados de ‘neurotransmissores’, são responsáveis pela comunicação entre neurônios e geram satisfação, bem estar e prazer em cascata, às vezes incontrolável. E se temos reforço positivo repetidas vezes, somos impelidos a buscá-las em grande quantidade.

Em busca de mais prazer, a conectividade ou a permanência em conexão (imersão) constrói dependências: nossos jovens já nascem dependentes de uma tecnologia artificial, hipertextual e planetária. E toda dependência sugere perda da capacidade de se equilibrar responsabilidade com fantasias: muito difícil ser adulto assim... Alias não há equilíbrio e nem controle. É a representação do momento em que, para manter-se conectado, provoca-se uma desconexão de pensamento e raciocínio (córtex pré-frontal): o que se deseja é a continuidade do prazer.

Como tudo é prazeroso, por que parar? Eis o problema, por exemplo, quando falamos de jovens nativos digitais, do uso do celular e sua crescente análise como extensão do corpo humano e transformação em necessidade básica. O celular tornou o nosso prazer maior algo febril e real: o prazer da comunicação. Naturalizamos a permanência do celular ligado em todos os nossos contextos de vida porque naturalizada está a permanente vontade (e prazer) de se comunicar todos com todos, hoje, a qualquer hora e em qualquer lugar.

Neste sentido, a questão da conectividade de todos com todos é real, mas demanda mudanças nas próprias conexões; tem tempo limitado ou limite de tempo; atravessa nossa necessidade absurda de comunicação; ofereceu-se à construção de um mundo nas nuvens, algo parecido com o ‘país das maravilhas’ cuja ‘alice’ somos nós mesmos e nossa complexidade triádica: física, cognitiva e emocional; precisa ser repensada quanto a sua instantaneidade já que as redes sociais, além da comunicação, prescindem de reflexão, tempo, silêncios e até ignorâncias (no sentido de ignorar, descartar); e investe, por exemplo, na disponibilidade de tempo de ‘estar com’ de todos com todos em tempos diferentes; além da afinidade de interesses, principalmente, quando o olhar precisa pinçar a atenção do jovem-aprendente.

Nossos jovens e nós somos um corpo com vários hologramas corporais na palma das mãos e na ponta dos dedos. Em favor de ‘mais prazer’, nós ultrapassamos o sentido da cooperação, de acordo com Spyer (2007), de natureza estática, e nos firmamos no sentido da colaboração, um processo dinâmico cuja meta é chegar a um resultado novo a partir de competências diferenciadas dos indivíduos ou grupos envolvidos (2007, p.23): e tudo, sempre, por / com prazer voraz. E o jovem correndo na frente do seu prejuízo.

Essa conectividade reorganizou a neuroplasticidade e, principalmente, a neuroquímica da neuroplasticidade. Nós e os jovens estamos preenchendo nossa necessidade de interação e de ‘estar com’. Nós e os jovens estamos amenizando nosso sentimento de solidão / de complementação emocional, mental e física. Telefones caseiros, celulares, notebooks e internet: construímos um mundo artificial, o humanizamos e ampliamos nosso poder de ‘estar com’. Mas a que preço?

Com o cérebro em conectividade intensiva, duas ações estão em andamento, porém ainda não definimos se para o bem ou para o mal: SELEÇÃO e ADAPTAÇÃO. Esqueçamos os mundos ideais, sempre conviveremos em meio a multiplicidade de mundos reais, ainda que apenas possíveis: aqueles observados de acordo com nossas imersões iniciais (primeira infância), e estas orquestrando a fundação de nossas crenças, formas de agir, certezas, éticas, escrúpulos e emoções; e estas ainda dialogando como ratificadoras ou retificadoras das crenças, formas de agir, certezas, éticas, escrúpulos e emoções alheias.

Navegar na realidade não pode incorrer no medo das tormentas: estas fortalecem as formas de agir, sentir e pensar; dão consistência à bainha de mielina, à memória e à rota das informações; e apontam para outras dimensões de ‘só-ser’ e de ‘ser-com’ tão exigidos pela vida em sociedade.

Hoje é muito difícil ter uma definição limite entre o mundo on-line e off-line; por isso, atenção ao julgar os mais jovens: guardadas as devidas proporções de tempo e tecnologias, eles ‘são’ nós ontem; eles são eles hoje; e de alguma maneira, precisamos ser nós mesmos para um futuro melhor. Como diz um personagem do filme ‘Caminhos da Floresta’: 
 - Cuidado com o que deseja... Cuidado com as crianças... Cuidado com a imaginação das crianças... Seu cérebro pode acreditar, gostar e depender disso para sempre.

Até a próxima!
 

terça-feira, 10 de março de 2015

Por que brincar é importante para o desenvolvimento da criança?

Por Portal da Saúde - Ministério da Saúde

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A brincadeira é muito mais que uma forma de passar o tempo. A reportagem a seguir apresenta informações que auxiliam pais e cuidadores a compreender o papel da brincadeira no desenvolvimento integral das crianças. A brincadeira é a principal forma de expressão da criança, e o principal meio de ela observar e interagir com o mundo.

A integrante do Comitê de Especialistas em Desenvolvimento na Primeira Infância do Ministério da Saúde Carolina, Drügg explica que é na brincadeira que a criança vai vivenciar muitas questões relacionadas ao bem-estar, como liberdade, criatividade, desenvolvimento do corpo, a imaginação, a tolerância às diferenças. Alguns exemplos de brincadeiras citados na reportagem são: bater palmas, brincar com o corpo, produzir sons, ouvir e, mais tarde, contar histórias.

 
 

Coluna do dia: Luto

 
 
Hoje a coluna sobre Pedagogia Hospitalar está de luto!

No domingo faleceu uma grande professora e pesquisadora da área, a Professora Elizete Matos, da Puc do Paraná.

Nós professores e pesquisadores, estamos transtornados, pois perdemos uma liderança.
 
Nossa singela homenagem!
 
Até semana que vem!


segunda-feira, 9 de março de 2015

Coluna do dia: O Segundo diagnóstico e a estimulação precoce





Em minha primeira coluna finalizei dizendo que hoje escreveria sobre a relação de carinho e confiança com a equipe multidisciplinar da Helena que, nesse período, tivera o diagnóstico de uma Hipoplasia do Vermis Cerebelar associado ao TEA (Transtorno do Espectro Autista).

Chegar as mãos de Vera Lúcia Mattos e Ediusa Araújo, proprietárias do Móbilie Infantil - Centro Integrado de desenvolvimento Infantil, equipe multidisciplinar, não foi uma tarefa tão simples, mas tive SORTE. Sim, a palavra correta é sorte! Eu não tinha conhecimento de absolutamente nada, precisei ser corajosa e confiar na indicação médica, afinal, nesse período, o vínculo entre médico e paciente já estava estabelecido. Dr. Jair Luiz Moraes nos acompanhava com muita competência e atenção.

Eu nunca tinha ouvido falar em PSICOMOTRICIDADE, nem o que era, nem quais seriam as formas de atuação, muito menos que benefícios traria a Helena, mas, mesmo assim, seguindo nosso querido Dr. Jair, marquei uma avaliação com a Fonoaudióloga e psicomotricista indicada, Vera Lúcia Mattos. Lembro-me de chegar ao local com Helena cheia de esperança, porém estava tensa, preocupada afinal eu já estava me apropriando de muitas informações sobre essa nova realidade de nossa família: o AUTISMO!

Encontrei uma profissional com uma fala firme, direta, observadora e, o melhor de tudo, encontrei nela liberdade e proximidade reconfortantes. Não existia aquela coisa fria ‘terapeuta x paciente’ e eu me senti a vontade para relatar todos os fatos desde a gestação de Helena. Vera Lúcia Mattos ouvia atentamente enquanto observava Helena e realizava, a partir de brincadeiras, as avaliações, sempre com empolgação e responsabilidade. Nesse processo, ela me esclareceu muito quanto ao início de terapias de minha filha.

Helena teria uma única equipe composta de uma fonoaudióloga, fisioterapeuta, psicóloga, terapeuta ocupacional e todas com ênfase na PSICOMOTRICIDADE que é uma ciência que tem por objetivo o estudo do homem através do seu corpo em movimento nas suas relações com seu mundo interno e externo (SPB,1984), definição do livro “ Psicomotricidade, corpo, ação e emoção” segundo Alves, Fatima.

Os atendimentos se iniciaram duas vezes na semana, individualmente e uma vez, na semana, em grupo, em uma metodologia própria que, ao longo das terapias, passei a conhecer, estudar e gostar. Neste tempo, conheci Ediusa Araujo, fonoaudióloga e psicomotricista. Esta atuava junto à Vera Mattos e, por questões de agenda, ela passou a ficar mais nos atendimentos com Helena.

Durante a semana, entre um atendimento e outro, houve muitas trocas, orientações e explicações entre Ediusa e eu; além de incentivo constante para continuar estudando a complexidade do autismo. Desde o primeiro dia, fui acolhida integralmente. Com o alto astral da Vera e sua risada contagiante, eu percebia que existia nela e em Ediusa muita paixão e dedicação pelo trabalho que desenvolviam naquele momento com minha filha. Porém faltava algo, a ESCOLA.  Eu resistia, o medo me impedia a dar mais este passo, afinal, aos dois anos de idade, Helena não ANDAVA bem ainda; e aos três anos, Helena não FALAVA. Eu tinha medo! Eu achava que ela não relataria a vida escolar e poderia passar por determinadas situações longe de mim. É agora que vocês vão entender a minha paixão e gratidão a Psicomotricidade.

Ediusa e Vera também já sinalizavam a importância e contribuição que a escola traria a Helena. Após muitas conversas passei a entender e a perceber os sinais de comunicação que ela dava, embora falasse pouco mais de três palavras. Eu percebia os gestos cada dia mais ricos: dia a dia, Helena se apropriava do seu corpo ao passo que a estimulação lhe possibilitava usá-lo também para se comunicar. Helena começava a se tornar independente e mais autônoma. Ela tropeçava e caia menos, consequentemente tinha mais equilíbrio e sustentava melhor sua atenção.

Tudo corria bem, até que TOM, meu outro filho, passou a desenvolver comportamentos estranhos, passava tempo brincando com o próprio cuspe de forma repetitiva, não atendia mais quando o chamávamos, e também não balbuciava mais. Aos seis meses de idade levei Tom à consulta com Dr. Jair a pedido do próprio médico só para avaliar o desenvolvimento, afinal tínhamos um histórico de má formação da Helena. Eu não me preocupei, tinha certeza que Tom se desenvolvia bem e, de fato, o médico não viu anormalidades.

Quando Tom chegou aos 13 meses, fizemos os primeiros relatos dos comportamentos que julgávamos diferentes em Tom para Dr. Jair. Este pediu uma avaliação da Equipe Multidisciplinar a qual Helena já estava inserida, senti um frio na barriga e ai, naquele momento, em seu consultório, eu senti sim meu mundo caindo, mesmo não fechando um diagnostico, eu sabia que tinha algo errado. Todo choro que contive nos diagnósticos de Helena, todo luto represado, pois, nesse período sim, eu já tinha estudado bastante o TEA, eu senti e vivi duramente e sozinha. Mas não demonstrei fragilidade na frente da minha mãe, minha companheira de todos esses momentos, nem na frente do pai das crianças. Também não me lembro de ter chorado na presença de alguém. Precisei sim de um tempo para sanar meus medos, principalmente em relação a como iria pagar mais terapias para o segundo filho, escola, convênio, transporte etc. Meu desespero aumentava.

Em minha solidão, eu sabia que precisaria me dividir e, ao mesmo tempo, me multiplicar para dar conta de tudo aquilo, agora, em dobro. Primeiros passos: optei por colocar Helena na rede municipal de ensino e, assim, poder pagar as terapias de Tom. Depois de três meses de estimulação, Tom foi diagnosticado também dentro do TEA.

Bom, colocar Helena na escola pública foi a decisão mais assertiva que tive. Meu processo de formação a respeito desse novo universo se dava nesse momento. Finalmente entendia para que EU tinha vindo ao mundo. Embora apaixonada pela minha profissão a Arquitetura, sempre tive capacidade de absorver rapidamente os desafios impostos pela vida e, desta vez, não seria diferente: Helena deveria ser INCLUSA também na/pela ESCOLA.

A partir daí, fui me apaixonando a cada dia por cada rostinho que eu via dentro da sala de aula dela. Eu tinha que acompanhá-la para a troca de fraldas e, consequentemente, fazer a mediação em sala, o que hoje, sei, não ser saudável e nem produtivo, porém era o que tinha que ser feito naquele momento e eu me senti confortada estando junto dela.

Essa situação aumentou minha necessidade de estudar mais. Eu sentia isso e resolvi aproveitar. Foi quando conheci Emanoele Freitas, minha primeira professora de Mediação Escolar e Adaptação de Materiais. Sai de Guaratiba para Nova Iguaçu sem pensar duas vezes. E, no decorrer dos dias, descobria que o que me mobilizava realmente não era a deficiência da minha filha, mas sim a carência de cada criança que vinha me pedir um beijo, um abraço, ou um simples ‘TIA, me leva ao banheiro?’. Eu percebia que, com toda dificuldade que minha filha tinha ou teria, no decorrer dos seus primeiros anos escolares, ela ainda tinha a mim, ao pai, à avó, à madrinha Débora, à minha irmã e fiel escudeira, aos meus primos (as) que, mesmo distantes, morando em São Paulo, se faziam presentes em sua vida, com esclarecimento suficiente para ajudá-la a ter independência e autonomia. Ainda assim, porém, muitos dos coleguinhas de Helena não tinham nem acesso à saúde básica e/ou um laudo. E criança sem laudo no BRASIL é criança sem Estimulação Precoce!

Até um determinado tempo me sentia muito sozinha, pensava em dois filhos com TEA e me desesperava pensando no meu e no futuro deles; ao mesmo tempo, olhava para aqueles dois rostinhos e meu peito se enchia de coragem para mais um dia, afinal contavam, principalmente, comigo para terem um desenvolvimento saudável dentro dos limites das suas deficiências.

No curso de mediação fiz mais amigas, todas mães muito interessadas em seus filhos e suas formas de aprender, daí passei a não mais me sentir tão sozinha. Neuma ou Pinke Anjo Azul, como se apelidou, foi uma dessas mães que, ao mesmo tempo, me bombardeou de informações causando-me stress, mas também me deu muito colo e carinho, em vários momentos, sem pestanejar. Ela me incentivou a pensar em outros cursos. Beatriz Machado, outra aluna e estudante de pedagogia, na época, me apresentou uma equipe que organizava cursos e palestras sobre Autismo e outros transtornos do desenvolvimento infantil: a CREATIVE IDÉIAS. E lá fui eu para a minha primeira JORNADA DE NEUROEDUCAÇÂO E NEUROCIENCIAS. Resultado: não queria outra coisa, naquele momento, para a minha vida senão me dedicar a estudar o assunto; além de entender, apreender e levar esclarecimento para aquelas famílias do meu bairro, em Guaratiba.

Nesse dia conheci, palestrando, as Profas FATIMA ALVES e RITA THOMPSON, mundos de conhecimento absurdos nas áreas da psicomotricidade e dos transtornos. Como essa relação de respeito, admiração, carinho e amizade, além da influência que tiveram e tem para minha formação pessoal e profissional, eu conto no próximo encontro dessa coluna. Além disso, vamos conversar sobre como foi o desfralde de Helena, sobre os prejuízos da falta de recurso financeiro que passamos, sobre os ganhos de Tom por causa da estimulação precoce e muito mais.

Um beijo e até a próxima.